√ Desafricanização da Umbanda

Neste esforço para legitimar a Umbanda como religião original e evoluída, os participantes procuraram cortá-la de suas raízes Afro-brasileiras. A origem da Umbanda foi traçada no Oriente de onde, se dizia, teria se espalhado para a Lemúria (um continente perdido), e daí para a África. Na África, continua a estória, a Umbanda degenerou em feiticismo. (…) A influência africana não era assim negada, mas olhada como uma corrupção da tradição religiosa original, na sua fase anterior de evolução. A Umbanda, teria ficado exposta ao barbarismo africano, na forma vulgar dos costumes, praticada por povos de costumes rudes, defeitos psicológicos e étnicos.

# Tina Gudrun Jensen.

Fevereiro 05 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

√ Caboclo não é Umbanda.

É hábito comum associar-se culto de Caboclo a Umbanda. Apesar da Umbanda ser uma religião na qual o culto aos Caboclos tem particular expressão, a verdade é que os ancestrais da terra brasileira já eram cultuados no Brasil muito antes da fundação e formação da Umbanda. O culto dos Caboclos foi introduzido pelo povo bantu, os angolanos e congoleses que aportaram ao Brasil através do comércio de escravos. Esses africanos possuiam o culto dos seus antepassados, num processo ritual que trazia de novo à terra os anciães falecidos, a fim de procederem ao tribunal dos costumes e dos conflitos. Esses antepassados – não divinizados – são o que se convencionou chamar de Pretos-Velhos.

Com o contato entre os africanos e os índios brasileiros sobreveio o culto dos Caboclos, seguindo a lógica de culto aos antepassados, num acrescento ritual de grande importância, uma vez que os negros reconheciam valor espiritual, cultural e moral aos nativos brasileiros, uma vez que havia uma espécie de partilha de estruturas religiosas.

Com a formação da Umbanda, uma religião fundada num processo tremendamente criativo, as estruturas religiosas africanas de origem bantu foram incorporadas, bem com elementos do culto jeje-nagô, do catolicismo popular português e do espiritismo francês. A Umbanda é assim uma invenção religiosa moderna brasileira que pegou nos Caboclos e Pretos-Velhos do culto bantu, introduziu o culto a Marinheiros e outros espíritos “encantados”, assimilou as lógicas de pensamento de bem e mal, deus e diabo, paz universal, castigo, e inferno do catolicismo, incorporou da tradição ameríndia a cura pelas plantas e fumos, e branqueou por caminhos católicos os Orixás dos yorùbás.

Portanto, afirmar que Candomblé é Orixá, Umbanda é Caboclo, é profundamente  errado. Primeiro porque o Candomblé de Caboclo é muito anterior à formação da Umbanda e segundo porque a Umbanda também cultua os Orixás, mesmo que o faça de um modo desorganizado e catolizado.

Agosto 11 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Centro de Umbanda é atacado em Duque de Caxias

A guerra religiosa imposta pelas igrejas pentecostais e neopentecostais às religiões de matriz africana ameaçam transformar o mapa social e religioso brasileira num autêntico campo de batalha em que a violência simbólica se transfigura em violência física. O fundamentalismo activo integrante de tais religiões ganha contornos nacionais ao ser apoiado por políticos como Anthony Garotinho. A liberdade e a pluralidade religiosa não cabem no discurso destas igreja cujo sacerdócio implica a destruição física e moral das comunidades religiosas afro-brasileiras. Fica mais uma notícia:

Um terreiro de Umbanda foi destruído por um homem terça-feira à noite, na Rua Visconde de Caravelas, no bairro Jardim Primavera, em Duque de Caxias. O pedreiro Luciano da Silva Claudino, 23 anos, é suspeito de invadir o Centro Espírita Vovô Cipriano de Aruanda e, com uma marreta, quebrar o altar, as paredes de quatro quartos de santo e vários objetos religiosos. Ele foi detido e liberado em seguida.

De acordo com o pai de santo Jorge Anderson Reis de Souza, 21 anos, Luciano entrou no local gritando que fazia aquilo a mando de alguém, pois tudo pertencia ao demônio e deveria ser quebrado. Assustado, ele se trancou em casa com a esposa, a tia, o filho de oito meses e uma filha de santo, que estava recolhida no terreiro.

“Tive que escorar a porta da sala com um sofá, pois ele queria nos atingir”, contou. Anderson fundou o terreiro na vila onde mora há três anos e desde então, segundo ele, vêm sofrendo com o preconceito. “Jogam pedregulhos e até bolas de gude para quebrar as telhas. Cospem no chão e viram a cara quando nos vêem”, contou.

Outro caso de suspeita de intolerância religiosa será investigado na Baixada. A suíça Emmanuelle Widmer, 58 anos, registou queixa contra um gari, por discriminação e injúria. Ela, que mede pressão no Centro de Nova Iguaçu e é espírtita, acusa o gari de lhe ofender com frases como “você é o diabo”.

Fevereiro 18 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Candomblé e Umbanda em Portugal – ação da APCAB

Aquando da constituição da APCAB em Janeiro de 2006 foram aprovados em Assembleia da República os estatutos da presente associação, que abordam para além da cultura Afro-Brasileira a religiosidade de mesmo cariz. Assim sendo a APCAB é formalmente reconhecida pelo governo português com a instituição em Portugal responsável pela preservação dos ritos afro-brasileiros e pelo controlo de irregularidades cometidas em nome das mesmas. Como prova seguem os artigos dos Estatutos que regulamentam essa delegação de funções:

linha n) do artigo 4º – “Promover e defender as religiosidades Afro-Provenientes, respeitando a Etnia por meio da ética.”

linha o) do artigo 4º – “Havendo Templos Associados, a APCAB, deverá fiscalizar as actividades dos mesmos, a fim de coibir actos abusivos, inadequados, ilegais ou que desvalorizem a Cultura Afro-Brasileira no seu cariz religioso.”

linha q) do artigo 4º – “Não permitir a apresentação e o uso, em festejos, manifestações públicas de qualquer espécie, objectos, insígnias, imagens ou nomes referentes à religiosidade Afro-Brasileira, inclusive indumentárias características ou momentos sagrados como exibição televisiva (quando não aprovados pela presente Associação).”

linha s) do artigo 4º – “Manter o intercâmbio sócio-cultural com as comunidades de Cultura e Religião Afro-Brasileira, visando a criação de um Código de Ética e Disciplina comuns, de modo a preservar a Cultura Afro-Brasileira.”

artigo 29º – “Completam as disposições do presente Estatuto: o Regimento Interno e o Código Nacional de Ética e Disciplina e Litúrgico, bem como os regulamentos e instruções aprovados pela directoria executiva.”

Janeiro 01 2009 | Acção Política e Social | No Comments »

√ As Fronteiras do Culto aos Orixás

a

longevidade do culto aos Òrìsás não tem fornecido as condições essenciais de garante de equidade de tratamento legal e social. Há verdadeiras fronteiras erigidas aos sacerdotes e devotos de tão milenar culto, quer em África (ponto de origem) quer no Brasil, quer mesmo em Portugal.

A crença animista e panteísta do culto aos Òrìsás, a incorporação, a estética berrante e os sistemas adivinhatórios, têm constituído uma complexa barreira entre a prevalência do culto e a discriminação generalizada.

Convencionalmente atribuísse às sociedades escravocratas, de vivência religiosa cristã-católica, a responsabilidade da segregação e discriminação do culto aos antigos deuses/semi-deuses africanos. A organização dos negros em confrarias religiosas do tipo católico, o missionarismo dos sacerdotes católicos e o medo face ao desconhecido, serviram durante décadas para fecundar a marginalização que perdurou até hoje, composta de todos os mais negativos adjectivos.

Todavia, as fronteiras erguem-se em todas as direcções. Em África, o culto aos Òrìsás sofre também de um estigma social extremamente forte. Embora seja considerada a mãe de todas as crenças, o legado tradicional e uma herança cultural, o culto tem no fulguroso islamismo e no crescente cristianismo importantes segregadores e estigmatizadores sociais.

No Brasil, à medida que o catolicismo vai perdendo expressão e o poder central vai afirmando o seu laicismo positivo – através de medidas de reconhecimento da pluralidade religiosa e de compensação da dívida histórica face ao culto aos Òrìsás (ali chamado de Candomblé) – crescem entre as novas expressões religiosas o mais profundo preconceito, perigoso e ilegal ataque à religião dos Òrìsás. As missões evangélicas, sobre todas as suas formas, acusam a herança religiosa africana de ser responsável pela pobreza e criminalidade no Brasil. Enquanto crença de origem africana apresenta-se, para esses, como o verdadeiro anti-cristo, esquecendo e renegando o papel vital das comunidades religiosas do Candomblé na integração comunitária, no combate à pobreza e à fome. A própria identidade das missões evangélicas assenta muito na oposição ao Candomblé. Sem o culto aos antigos deuses dos escravos, os evangélicos perderiam parte da sua força e mensagem – marcada por um fundamentalismo de ataque.

Em Portugal, o culto aos Òrìsás começa a disseminar-se, através dos mais diversos canais sociais e mediáticos. A televisão, através das telenovelas, abriu a porta à curiosidade e ao sensorial. O crescendo fluxo de trocas simbólicas entre Portugal e o Brasil acelerou o processo. Todavia, devido a uma ainda existente moralidade e convencional ética/estética católica, o culto aos Òrìsás ganha maior relevo através da Umbanda, religião brasileira por excelência, e promotora do sincretismo afro-católico. Ademais, a própria religião auto-estigmatiza-se, através de um sem número de novos sacerdotes, que não tendo completado os ritos iniciáticos ou até mesmo não tendo sido iniciados no culto, se afirmam megafonicamente como pais e mães-de-santo. Institucionalmente, em Portugal, a fronteira será quebrada quando o governo português se dispuser a oficializar os cultos afro-brasileiros, e lhes conferir estatuto de igualdade face às demais religiões. Tal só ocorrerá quando o Ocidente deixar de centrar o diálogo intercultural e inter-religioso na dicotomia cristianismo/islamismo.

(pré-publicação de artigo da Revista Sem Correntes)

Novembro 17 2008 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Reafricanizar a Umbanda: um erro de substância

 

Religiosidade Afro-Brasileira

A proposta de africanização da religião Umbanda,

que começa a surgir em alguns círculos de pensadores

das religiões afro-brasileiras constitui um erro crasso,

já que propõe substituir a génese fundadora da religião

e encaminhá-la para a esfera do Candomblé.

 

A

Umbanda é considerada a religião brasileira por excelência, embora nos censos e no mundo académico continue a prevalecer a denominação de religião de matriz afro-brasileira. Sem estar totalmente errado contém a falácia de dar ênfase à herança africana sobre outras matrizes fundamentais no processo, como o espiritismo francês de Alan Kardec e o catolicismo português.

Nascida nos primeiros anos do século XX e consolidada entre 1910 e 1930, a Umbanda representa estética e estruturalmente a própria formação da nacionalidade brasileira, ao se compor de uma amálgama cultural que bebe transversalmente elementos das raças fundadoras do país: europeia, ameríndia e africana. É, portanto, uma verdadeira marca da mestiçagem brasileira.

Ao ser uma religião mestiça constitui-se e reveste-se de ritos, práticas, mitologias, leituras e códigos interdisciplinares. Ou seja, a Umbanda é uma religião que veste a pele do Candomblé Angola e Ketu, na estrutura cerimonial do culto, na sonoridade dos atabaques e agogôs, no culto aos Orixás, nas vestes rendadas e coloridas, no conceito e no imaginário dos rituais iniciáticos; usa o estandarte do catolicismo no seu imaginário profundamente sincrético, nas rezas e cânticos e na relação com a trindade cristã e panteão dos santos invocativos; sustenta as práticas de cura na tradição ameríndia e no Candomblé de Caboclo, com as defumações, invocações e incorporações dos índios da grande família tupi-guarani; e comporta-se fisicamente de acordo com a lógica central do espiritismo francês de Alan Kardec, com a supremacia da incorporação como processo de desenvolvimento espiritual e de cura dos males incorpóreos.

Ora, se a Umbanda se processa como resultado de uma mescla de tradições culturais e religiosas, reconduzi-la para o universo do Candomblé, particularmente para o movimento de africanização ritual e mitológica, trata-se de misturar origens etno-culturais com processos identitários de outra religião. O movimento de africanização do Candomblé resulta da consciência interna da necessidade de recodificar a religião, recuperando as suas raízes étnicas, os seus ritos mais profundos e a própria calendarização africana. Esta consciência nasce de uma abertura política que coloca as religiões afro-brasileiras num patamar de aceitação pública. Nesse sentido, a africanização centra-se no quadro simbólico do sincretismo, processo adoptado pelos primeiros africanos no Brasil, por forma a esconder as suas práticas religiosas, e resume-se a um engenhoso mecanismo de associação das divindades africanas Orixás, Voduns e Inkices a santos do imaginário católico e de recalendarização dos tempos festivos. O processo anti-sincrético resume o âmago da africanização do Candomblé.

Assim, se a africanização do Candomblé consiste na remoção dos elementos católicos do seu imaginário colectivo, jamais será aceitável e natural que a Umbanda se embrenhe no mesmo processo, embora não seja impossível de supor que tal venha a acontecer, particularmente atendendo ao decréscimo de umbandistas em detrimento do Candomblé, seduzidos pela pureza do culto. Ainda assim é importante manter a ressalva de que se tal vier a acontecer constituirá um resultado contra-natura da Umbanda e traduz a necessidade de revalorização da religião no mercado religioso. Reencaminhar a Umbanda no sentido da africanização é um pressuposto novo e que pretende equiparar a religião ao Candomblé. Pensar em tal possibilidade significa colocar sobre a mesa a recodificação e resignificação da religião umbandista. Hinos, rezas e cânticos teriam de ser reformulados, sendo-lhes retirado a sua própria essência: a alusão profundamente sincrética ao universo católico, com os santos, Cristo e Virgem Maria.

Por isso, a proposta de africanização da religião Umbanda constitui uma proposta que transporta a religião para fora da sua própria esfera, colocando-a em jogo consigo mesma, num diálogo de redefinição da sua própria identidade. Todavia, tal proposta não parece nem viável nem coerente.

Outubro 10 2008 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

Protegido: √ Caderno nº 5: A Umbanda e Portugal

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Setembro 11 2008 | cadernos APCAB | Introduza a sua password para ver os comentários

√ Tradições Ameríndias (Introdução)

::família Tupi::

As tribos indígenas, da terra que um dia se chamaria Brasil, nada tinham a ver com as civilizações Maia, Inca e Asteca. A densa floresta brasileira era habitada por caçadores e recolectores, cuja crença era a de um deus superior criador e protector, espíritos evoluídos com características análogas aos Orixás, protectores de rios e matas, bem como a da existência de espíritos que praticavam o mal e espíritos obsessivos. À imagem dos negros de Angola e Congo, cultuavam os seus antigos parentes e chefes.

O contacto com os espíritos era feito pela dança livre, fumo do tabaco e ervas próprias, sob a liderança do pajé, o curandeiro das ervas medicinais indígenas. A recepção dos espíritos era semelhante ao Candomblé de Caboclo, chamando estes de “Encantados”. Possuíam também a adivinhação, sendo esta mais simples que a africana dos escravos, e feita através da flora, fauna e de chuvas e ventos, e uns búzio, que hoje chamamos de “jogo de Caboclo”, evoluído pelas assimilações de outras culturas.

Hoje, na Umbanda, encontramos práticas ameríndias, como as defumações e curas pelos sopros de fumos dos Caboclos, Pretos Velhos, Pomba-Giras e Bahianas. Estas crenças assimilaram outras afro-brasileiras, dando origem a novos rituais :

CATIMBÓS: cujo nome deriva da língua dos Tupis, consiste numa fusão fantástica de crenças, cuja explicação é estranha e só observável, das tradições: feitiçaria europeia, crendices populares portuguesas, crenças naturalmente ameríndias misturadas com crenças angolano-congolesas e xamanismo. Os seus ritos acentam no transe pelo fumo de marijuana, tabaco, folhas de jurema e quina. Centra-se em toda a região nordestina.

XANGÔS: assim denominados por ter sido este o primeiro Orixá a entrar no Brasil, como é natural, motivado pelo desejo do negro de justiça face homem branco. Centra-se na mistura de influências essencialmente africanas, portuguesas e ameríndias. Encontra-se nas regiões de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Sergipe.

PAJELANÇAS: dos estados do Pará, Amazónia, Maranhão e Piauí, doutrina-se na fusão das crenças ameríndias e africanas com influências do catolicismo e espiritismo.

 

Junho 15 2008 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

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