…um grande terreiro muito limpo, no meio do qual estavam quatro tangedores festejando um ídolo que tinham no chão, posto sobre um fino pano de seda, com uns chocalhos e uma campainha; estariam então no terreiro coisa de mil gentios, todos estirados e untados no rosto e no corpo com várias castas de erva, que pareciam diabos, pedindo água ao ídolo.
# relação jesuíta, 1588, reino do Congo
… havia anos (…) sem nunca chover uma gota de água nas terras deste soba, sendo que chovia na dos seus vizinhos; mas que em vindo a cruz, logo chovera.
# Teixeira de Mendonça, 1645, região de Kikombo, reino do Soba Kionzo
Estes dois trechos mostram bem como o racismo biológico era aplicado à religiosidade. Enquanto os tradicionalistas, com ar demoníaco, pediam em vão ao ídolo que chovesse, na região de Kikombo bastou chegar um jesuíta com um crucifixo para que logo viesse a chuva. Esta desestruturação e desconstrução da religiosidade africana ao nível do demoníaco e o caráter salvador do cristianismo, tudo nestes trechos expresso, revelam o pensamento da época, em que os missionários cristãos salvam das garras do demónio os erráticos africanos.
Quase todo o povo-de-santo conhece o mito que narra o divertimento de Exú passeando o seu chapéu de duas cores. A narrativa é mais ou menos a seguinte:
Certa vez dois camponeses amigos esqueceram de fazer suas oferendas na segunda-feira. Eles eram vizinhos, sendo suas terras separadas por uma grande porteira. Exu colocou sobre a cabeça um chapéu pontudo de duas cores, de um lado vermelho e do outro branco,e foi passear nas fazendas, andando por cima da cerca. Cumprimentou o trabalhador da esquerda e depois o da direita.Assim que Exu foi embora,os dois comentaram sobre o chapéu , que era grande e pontudo chamando a atenção ; houve muita confusão porque um achava que era branco e o outro firmava que era vermelho.Os dois tinham razão em defender seu ponto de vista e, irritados, atracaram-se até a morte. Exu apareceu, dando uma enorme gargalhada. Ele havia se vingado dos dois.
Este mito, que é contado e recontado permanentemente ao ponto de ninguém o questionar, é na verdade uma construção narrativa do Padre Baudin, missionário francês na Nigéria, que procurando por todos os caminhos denegrir o culto aos Orixás, redigiu este e outros mitos que fez circular pela Europa e América, sendo hoje reproduzido pelo povo-de-santo e académicos. A verdade é que este mito é baseado num conto popular de natureza cristã que procura explicitar a natureza perigosa, dúbia e enganadora do Diabo judaico-cristão. O Padre Baudin, na intenção de denegrir o culto Yorùbá associou Exú ao Diabo, com arte e engenho, erro que perdurou na própria natureza da Umbanda.
Chico Xavier, cidadão mineiro do século XX, influenciou a religiosidade brasileira, ao promover e espalhar a doutrina espírita nos meios de comunicação social e ao apresentar uma religiosidade à medida do Brasil de então: europeia e branca. Vivia o Brasil o apogeu do racismo biológico e da descriminação religiosa, fruto do forte desejo governamental de criação de um país morfologicamente branco e culturalmente europeu. O espiritismo vinha assim contrapôr-se às religiões afro-brasileiras, reminiscências do período esclavagista e herança tida como inferior e de magia negra e demoníaca, por ser africana.
Chico Xavier, tão saudado pelas suas lições de moralidade e espiritualidade, contribuiu para essa difamação das religiões afro-brasileiras, ao considerar que Caboclos, Pretos-Velhos e Orixás são espíritos não-evoluídos e que tal como os escravos estiveram em vida, os espíritos africanos e dos seus deuses deveriam estar ao serviço dos brancos, numa devoção cega que seria retribuída com amor. Um amor que se revela assim venenoso.
As queixas da Aliança Evangélica Portuguesa, em relação à assistência religiosa a presos e doentes (Público), tem todo o seu fundamento e claro é mais um sinal de que a diversidade religiosa não tende ainda a ser equidade religiosa. Todavia, a AEP tem muito menos que se queixar do que as comunidades religiosas afro-brasileiras do Candomblé e Umbanda, permanentemente excluídas do espaço público religioso e mediático. Até quando?
A guerra religiosa imposta pelas igrejas pentecostais e neopentecostais às religiões de matriz africana ameaçam transformar o mapa social e religioso brasileira num autêntico campo de batalha em que a violência simbólica se transfigura em violência física. O fundamentalismo activo integrante de tais religiões ganha contornos nacionais ao ser apoiado por políticos como Anthony Garotinho. A liberdade e a pluralidade religiosa não cabem no discurso destas igreja cujo sacerdócio implica a destruição física e moral das comunidades religiosas afro-brasileiras. Fica mais uma notícia:
Um terreiro de Umbanda foi destruído por um homem terça-feira à noite, na Rua Visconde de Caravelas, no bairro Jardim Primavera, em Duque de Caxias. O pedreiro Luciano da Silva Claudino, 23 anos, é suspeito de invadir o Centro Espírita Vovô Cipriano de Aruanda e, com uma marreta, quebrar o altar, as paredes de quatro quartos de santo e vários objetos religiosos. Ele foi detido e liberado em seguida.
De acordo com o pai de santo Jorge Anderson Reis de Souza, 21 anos, Luciano entrou no local gritando que fazia aquilo a mando de alguém, pois tudo pertencia ao demônio e deveria ser quebrado. Assustado, ele se trancou em casa com a esposa, a tia, o filho de oito meses e uma filha de santo, que estava recolhida no terreiro.
“Tive que escorar a porta da sala com um sofá, pois ele queria nos atingir”, contou. Anderson fundou o terreiro na vila onde mora há três anos e desde então, segundo ele, vêm sofrendo com o preconceito. “Jogam pedregulhos e até bolas de gude para quebrar as telhas. Cospem no chão e viram a cara quando nos vêem”, contou.
Outro caso de suspeita de intolerância religiosa será investigado na Baixada. A suíça Emmanuelle Widmer, 58 anos, registou queixa contra um gari, por discriminação e injúria. Ela, que mede pressão no Centro de Nova Iguaçu e é espírtita, acusa o gari de lhe ofender com frases como “você é o diabo”.
Susanne Wenger, Àdúnní Òlóòrìsà, faleceu com 94 anos deixando a cultura tradicional nigeriana órfã de uma das suas maiores defensoras do último meio século. Susanne Wenger não era apenas uma artista plástica em defesa da arte e da religião tradicionais Yorùbá, era também a sacerdotisa de Òsun (Oxum) em Òsogbó. A sua morte foi celebrada por todos, uns pela sua passagem para o òrún (plano do divino) outros pelo seu simples fim.
O Ocidente vive a fachada da liberdade religiosa, da sua equidade de tratamento, e da Diaspora dos seus valores. O Cristianismo e o Islamismo usam do megafone político, social e mediático para promover a sua mensagem ao mesmo tempo que balançam a bandeira da defesa da vida. Certo é que, na Nigéria, são eles os principais opressores à liberdade religiosa e agressores à vida. Os fiéis da religião tradicional Yorùbá são persseguidos, psicologicamente violentados e alvos dos mais variados ataques inclusive no seio das suas famílias, com o recurso a exorcismos, tudo para que deixem a religião tradicional, que habita a Nigéria há mais de dez mil anos, e se convertam ao cristianismo ou islamismo.
Adunni Olorisa faleceu e todos esses gritaram Hallelujah! Sim, são defensores da vida.
À excepção das civilizações Ocidental e Islâmica, as demais civilizações encontram o seu eco de representação e de reconhecimento global vários séculos após o seu término. A própria História Universal é uma farsa académica, uma bíblia de relatos, uma composição selectiva de acontecimentos que dizem respeito ao Ocidente. De fora ficam as civilizações tradicionais que ainda se mantém vivas, do relato da história não fazem parte os acontecimentos históricos africanos. Há, portanto, uma segregação dos relatos históricos, de que a religião Cristã não está isenta, enquanto paradigma de construção de balizas temporais. Nesse sentido importa recordar que a ainda viva civilização Yorùbá não só foi promotora da construção identitária brasileira, não só possui uma Diaspora quase inigualável, como se mantém viva e tradicionalista sem desapego à modernidade. A Civilização Yorùbá era já velha quando a Cristandade deu os primeiros passos e fecundou a História. Ilé-Ifẹ, a cidade-santa Yorùbá, data de 500 a.c., isto diz muito da segregação generalizada. Até quando?