√ Perseguição Religiosa

O crescimento das igrejas salvacionistas no Brasil, de natureza evangélica, tem promovido o preconceito e a perseguição religiosa face às religiões de matriz afro-descendente no Brasil, recuperando um clima de temor que imperou durante séculos no seio das comunidades religiosas do Candomblé (em maior grau do que a Umbanda, nascido em clima de maior abertura). A ausência de uma instituição central representativa do Candomblé e a falta de reconhecimento do Candomblé como religião por parte do governo brasileiro (diferentemente do que acontece em Portugal, onde existe um órgão central que conquistou o reconhecido do Candomblé como religião – Comunidade Portuguesa do Candomblé Yorùbá) levam a que os fiéis do Candomblé e a própria religião continuem a estar associados a práticas demoníacas.

É necessário, pois, que o Estado Brasileiro promova uma política de controlo e combate à perseguição religiosa de que os cultos afro-brasileiros são ainda alvos privilegiados. Sítios na internet como o Intellectus, que demonizam e violentam verbalmente as religiões de matriz africana,  deveriam ser encerrados. É preciso fazer mais e melhor no combate pela igualdade religiosa.

imagem via: http://herculano-coisasdobrasil.blogspot.com

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&client=firefox-a&hs=017&rls=org.mozilla%3Apt-PT%3Aofficial&q=comunidade+portuguesa+do+candombl%C3%A9+yoruba&aq=f&aqi=&aql=&oq=&gs_rfai=

Agosto 31 2010 | Acção Política e Social | No Comments »

√ Fetichismo dos Brancos Católicos

Nina Rodrigues, médico e psicólogo bahiano do século XIX, publicou entre 1896 e 1897, um conjunto de textos apelidado de “O Animismo Fetichista Dos Negros Baianos”. Essa e outras tantas obras serviram de plataforma para a construção de uma ideia de que as crenças africanas eram ridículas e primárias. O termo «fetiche», sabemos, foi empregado pela primeira vez por Charles de Brosses, em 1757, e traduz-se pela atribuição de poderes sobrenaturais a objetos e coisas. Sabendo que a cultura material tradicional (termo preferível face a primitivo) se reporta quase invariavelmente aos símbolos religiosos, apresenta-se como natural o culto a imagens como símbolos de força, energia vital ou representação de heróis e deuses. O oxê (machado de Xangô) é um símbolo, normalmente talhado a madeira, usado como representação do quarto alafin (monarca) de Oyó, Xangô, que mais tarde veio a ser um ancestral divinizado. Todavia, o oxê não é Xangô, mas é um objeto integrante do culto a esta divindade, ao qual é atribuído representatividade.

Contudo, a ideia de fetichismo permaneceu ligada às expressões religiosas tradicionais, ao passo que a iconolatria se instituiu como termo adaptado às religiões do livro. O fetichismo dos negros tornou-se então paradigma de análise do culto das imagens sob uma perspetiva de ilusão, primitiva expressão de fé e falso culto.

Graças ao predomínio do modelo religioso e filosófico cristão-ocidental, jamais o culto dos santos e das imagens católicas foram alvo de uma abordagem do ponto de vista do fetichismo. Construindo a narrativa ao contrário poderemos falar num “fetichismo dos brancos católicos”? Penso que sim. O culto dos altares e dos santos de gesso ou madeira enquanto expressão de uma ideia de santidade e estereotipias humanas, constitui, visto de fora, uma relação entre sujeito (crente) e objeto (altares, santo) alicerçada numa ideia de probabilidade: o crente pressupõe que a reza a objetos aos quais atribui valor religioso traduzirão perante a metáfora superior do supreme-being os seus ansejos e receios. Ao mesmo tempo, o culto permanente e em inúmeros casos de feição doméstica – tal como ocorre com os altares e os santos – dos crucifixos, comporta a expressão máxima de fetichismo, porquanto representa a crença nos poderes sobrenaturais de uma imagem de madeira ou metal. Nesse sentido, o fetichismo católico trata-se de um etnema expresso quer pelos crucifixos, quer pelos santos nos altares, que revela uma crença também ela fundada nos poderes possíveis de objetos aos quais são atribuídos valores sobrenaturais.

© imagem – pedro_léo

Julho 17 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Pilão de Prata alvo de intolerância

Agradecemos ao Babalorixá Joel do Ilê Axé Eiyelé Ogê, nosso irmão no Ilê Odô Ogê, pela seguinte informação:

Durante esta semana o Ilê Odô Ogê, Roça do Pilão de Prata, na Alto do Caxundé, Boca do Rio, Salvador, Bahia, foi visitado por um fiscal do governo por denúncia de violação da ordem pública por “tocar Candomblé”, como se dizia no tempo da ditadura em que o Candomblé era proibido. Apesar de ter sido tombado como património e ter sido reconhecido como espaço religioso de mérito, o Pilão de Prata começa a ser vítima da intolerância religiosa das igrejas evangélicas que nascem nas imediações do Terreiro. Resta aguardar que o governo seja capaz de aplicar a laicidade e faça respeitar o direito a “tocar candomblé” como prática sonora religiosa, tal como as igrejas têm o direito de tocar os sinos e órgãos.

Março 22 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | 3 Comments »

√ Lamentável.

Considera-se lamentável a crescente onda de violência física e psicológica contra os imigrantes na Itália de Berlusconi. O racismo genético parece perdurar nas instituições democráticas italianas e nas populações ávidas de encontrar culpados para a sua situação económica. A Alemanha viu uma coisa parecida e acabou numa das maiores atrocidades da história contemporânea.

Janeiro 08 2010 | Acção Política e Social | No Comments »

√ Eurocentrismo e racismo biológico: religião e religiosidade

…um grande terreiro muito limpo, no meio do qual estavam quatro tangedores festejando um ídolo que tinham no chão, posto sobre um fino pano de seda, com uns chocalhos e uma campainha; estariam então no terreiro coisa de mil gentios, todos estirados e untados no rosto e no corpo com várias castas de erva, que pareciam diabos, pedindo água ao ídolo.

# relação jesuíta, 1588, reino do Congo

… havia anos (…) sem nunca chover uma gota de água nas terras deste soba, sendo que chovia na dos seus vizinhos; mas que em vindo a cruz, logo chovera.

# Teixeira de Mendonça, 1645, região de Kikombo, reino do Soba Kionzo

Estes dois trechos mostram bem como o racismo biológico era aplicado à religiosidade. Enquanto os tradicionalistas, com ar demoníaco, pediam em vão ao ídolo que chovesse, na região de Kikombo bastou chegar um jesuíta com um crucifixo para que logo viesse a chuva. Esta desestruturação e desconstrução da religiosidade africana ao nível do demoníaco e o caráter salvador do cristianismo, tudo nestes trechos expresso, revelam o pensamento da época, em que os missionários cristãos salvam das garras do demónio os erráticos africanos.

Novembro 02 2009 | Antropologia | No Comments »

√ Falso Mito: Exú e o chapéu de duas cores

Quase todo o povo-de-santo conhece o mito que narra o divertimento de Exú passeando o seu chapéu de duas cores. A narrativa é mais ou menos a seguinte:
Certa vez dois camponeses amigos esqueceram de fazer suas oferendas na segunda-feira. Eles eram vizinhos, sendo suas terras separadas por uma grande porteira. Exu colocou sobre a cabeça um chapéu pontudo de duas cores, de um lado vermelho e do outro branco,e foi passear nas fazendas, andando por cima da cerca. Cumprimentou o trabalhador da esquerda e depois o da direita.Assim que Exu foi embora,os dois comentaram sobre o chapéu , que era grande e pontudo chamando a atenção ; houve muita confusão porque um achava que era branco e o outro firmava que era vermelho.Os dois tinham razão em defender seu ponto de vista e, irritados, atracaram-se até a morte. Exu apareceu, dando uma enorme gargalhada. Ele havia se vingado dos dois.

Este mito, que é contado e recontado permanentemente ao ponto de ninguém o questionar, é na verdade uma construção narrativa do Padre Baudin, missionário francês na Nigéria, que procurando por todos os caminhos denegrir o culto aos Orixás, redigiu este e outros mitos que fez circular pela Europa e América, sendo hoje reproduzido pelo povo-de-santo e académicos. A verdade é que este mito é baseado num conto popular de natureza cristã que procura explicitar a natureza perigosa, dúbia e enganadora do Diabo judaico-cristão. O Padre Baudin, na intenção de denegrir o culto Yorùbá associou Exú ao Diabo, com arte e engenho, erro que perdurou na própria natureza da Umbanda.

Setembro 23 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Chico Xavier e as religiões afro-brasileiras

Chico Xavier, cidadão mineiro do século XX, influenciou a religiosidade brasileira, ao promover e espalhar a doutrina espírita nos meios de comunicação social e ao apresentar uma religiosidade à medida do Brasil de então: europeia e branca. Vivia o Brasil o apogeu do racismo biológico e da descriminação religiosa, fruto do forte desejo governamental de criação de um país morfologicamente branco e culturalmente europeu. O espiritismo vinha assim contrapôr-se às religiões afro-brasileiras, reminiscências do período esclavagista e herança tida como inferior e de magia negra e demoníaca, por ser africana.

Chico Xavier, tão saudado pelas suas lições de moralidade e espiritualidade, contribuiu para essa difamação das religiões afro-brasileiras, ao considerar que Caboclos, Pretos-Velhos e Orixás são espíritos não-evoluídos e que tal como os escravos estiveram em vida, os espíritos africanos e dos seus deuses deveriam estar ao serviço dos brancos, numa devoção cega que seria retribuída com amor. Um amor que se revela assim venenoso.

 O video que se segue é a prova disso.


 {via ‘Povo do Santo – FSA‘}

Agosto 04 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

√ Desigualdade

As queixas da Aliança Evangélica Portuguesa, em relação à assistência religiosa a presos e doentes (Público), tem todo o seu fundamento e claro é mais um sinal de que a diversidade religiosa não tende ainda a ser equidade religiosa. Todavia, a AEP tem muito menos que se queixar do que as comunidades religiosas afro-brasileiras do Candomblé e Umbanda, permanentemente excluídas do espaço público religioso e mediático. Até quando?

Julho 29 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

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