
conceito de «Negritude» nasceu com as primeiras décadas do século XIX (19) e tinham um carácter eminentemente emancipacionista da identidade negra, e expressava-se culturalmente através da literatura e demais manifestações artísticas. Agrupando negros, mestiços e brancos liberais, o «movimento negritude» promovia a recuperação da afirmação valorativa da africanidade, das raízes étnicas africanas, nos continentes americanos, Cuba e Haiti, locais de expressiva afro-descendência.
Este ideal de africanismo e indigenismo nasce profundamente influenciado pelo romantismo e por um novo iluminismo liberal de espírito francês, propulsores da abolição da escravatura. O termo “Negritude” aparece pela primeira vez escrito por Aimé Césaire, em 1938, no seu livro de poemas, “Cahier d’un retour au pays natal”; está intimamente associado ao trabalho reivindicativo de um grupo de estudantes africanos em Paris, nos princípios da década de 30, de que se destacam como principais responsáveis e dinamizadores Léopold Sédar Senghor (1906) senegalês, Aimé Césaire (1913), martinicano, e Leon Damas (1912), ganês. Estes autores da Negritude legaram-nos uma obra literária da máxima importância. Todavia, foi Senghor que, com a Presidência do seu País, o Senegal, e uma larga aceitação Ocidental (política literária e académica) contribuiu decisivamente para a divulgação da Negritude. É a ele que é atribuída a definição do próprio movimento nos seguintes termos: “Conjunto dos valores culturais do mundo negro”.
[foto de Fractal Artist]
Novembro 11 2008 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »
Religiosidade Afro-Brasileira
A proposta de africanização da religião Umbanda,
que começa a surgir em alguns círculos de pensadores
das religiões afro-brasileiras constitui um erro crasso,
já que propõe substituir a génese fundadora da religião
e encaminhá-la para a esfera do Candomblé.
Umbanda é considerada a religião brasileira por excelência, embora nos censos e no mundo académico continue a prevalecer a denominação de religião de matriz afro-brasileira. Sem estar totalmente errado contém a falácia de dar ênfase à herança africana sobre outras matrizes fundamentais no processo, como o espiritismo francês de Alan Kardec e o catolicismo português.
Nascida nos primeiros anos do século XX e consolidada entre 1910 e 1930, a Umbanda representa estética e estruturalmente a própria formação da nacionalidade brasileira, ao se compor de uma amálgama cultural que bebe transversalmente elementos das raças fundadoras do país: europeia, ameríndia e africana. É, portanto, uma verdadeira marca da mestiçagem brasileira.
Ao ser uma religião mestiça constitui-se e reveste-se de ritos, práticas, mitologias, leituras e códigos interdisciplinares. Ou seja, a Umbanda é uma religião que veste a pele do Candomblé Angola e Ketu, na estrutura cerimonial do culto, na sonoridade dos atabaques e agogôs, no culto aos Orixás, nas vestes rendadas e coloridas, no conceito e no imaginário dos rituais iniciáticos; usa o estandarte do catolicismo no seu imaginário profundamente sincrético, nas rezas e cânticos e na relação com a trindade cristã e panteão dos santos invocativos; sustenta as práticas de cura na tradição ameríndia e no Candomblé de Caboclo, com as defumações, invocações e incorporações dos índios da grande família tupi-guarani; e comporta-se fisicamente de acordo com a lógica central do espiritismo francês de Alan Kardec, com a supremacia da incorporação como processo de desenvolvimento espiritual e de cura dos males incorpóreos.
Ora, se a Umbanda se processa como resultado de uma mescla de tradições culturais e religiosas, reconduzi-la para o universo do Candomblé, particularmente para o movimento de africanização ritual e mitológica, trata-se de misturar origens etno-culturais com processos identitários de outra religião. O movimento de africanização do Candomblé resulta da consciência interna da necessidade de recodificar a religião, recuperando as suas raízes étnicas, os seus ritos mais profundos e a própria calendarização africana. Esta consciência nasce de uma abertura política que coloca as religiões afro-brasileiras num patamar de aceitação pública. Nesse sentido, a africanização centra-se no quadro simbólico do sincretismo, processo adoptado pelos primeiros africanos no Brasil, por forma a esconder as suas práticas religiosas, e resume-se a um engenhoso mecanismo de associação das divindades africanas Orixás, Voduns e Inkices a santos do imaginário católico e de recalendarização dos tempos festivos. O processo anti-sincrético resume o âmago da africanização do Candomblé.
Assim, se a africanização do Candomblé consiste na remoção dos elementos católicos do seu imaginário colectivo, jamais será aceitável e natural que a Umbanda se embrenhe no mesmo processo, embora não seja impossível de supor que tal venha a acontecer, particularmente atendendo ao decréscimo de umbandistas em detrimento do Candomblé, seduzidos pela pureza do culto. Ainda assim é importante manter a ressalva de que se tal vier a acontecer constituirá um resultado contra-natura da Umbanda e traduz a necessidade de revalorização da religião no mercado religioso. Reencaminhar a Umbanda no sentido da africanização é um pressuposto novo e que pretende equiparar a religião ao Candomblé. Pensar em tal possibilidade significa colocar sobre a mesa a recodificação e resignificação da religião umbandista. Hinos, rezas e cânticos teriam de ser reformulados, sendo-lhes retirado a sua própria essência: a alusão profundamente sincrética ao universo católico, com os santos, Cristo e Virgem Maria.
Por isso, a proposta de africanização da religião Umbanda constitui uma proposta que transporta a religião para fora da sua própria esfera, colocando-a em jogo consigo mesma, num diálogo de redefinição da sua própria identidade. Todavia, tal proposta não parece nem viável nem coerente.
Outubro 10 2008 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »