√ Lamentável.

Considera-se lamentável a crescente onda de violência física e psicológica contra os imigrantes na Itália de Berlusconi. O racismo genético parece perdurar nas instituições democráticas italianas e nas populações ávidas de encontrar culpados para a sua situação económica. A Alemanha viu uma coisa parecida e acabou numa das maiores atrocidades da história contemporânea.

Janeiro 08 2010 | Acção Política e Social | No Comments »

√ Eurocentrismo e racismo biológico: religião e religiosidade

…um grande terreiro muito limpo, no meio do qual estavam quatro tangedores festejando um ídolo que tinham no chão, posto sobre um fino pano de seda, com uns chocalhos e uma campainha; estariam então no terreiro coisa de mil gentios, todos estirados e untados no rosto e no corpo com várias castas de erva, que pareciam diabos, pedindo água ao ídolo.

# relação jesuíta, 1588, reino do Congo

… havia anos (…) sem nunca chover uma gota de água nas terras deste soba, sendo que chovia na dos seus vizinhos; mas que em vindo a cruz, logo chovera.

# Teixeira de Mendonça, 1645, região de Kikombo, reino do Soba Kionzo

Estes dois trechos mostram bem como o racismo biológico era aplicado à religiosidade. Enquanto os tradicionalistas, com ar demoníaco, pediam em vão ao ídolo que chovesse, na região de Kikombo bastou chegar um jesuíta com um crucifixo para que logo viesse a chuva. Esta desestruturação e desconstrução da religiosidade africana ao nível do demoníaco e o caráter salvador do cristianismo, tudo nestes trechos expresso, revelam o pensamento da época, em que os missionários cristãos salvam das garras do demónio os erráticos africanos.

Novembro 02 2009 | Antropologia | No Comments »

√ Eurocentrismo e racismo biológico

Os naturais trabalham pouco nas terras (…) por serem propensos à preguiça (…) cultivando-se pouco terreno, frequentemente ficam os naturais aflitos por horríveis carestias. (…) Pode parecer incrível que, com todo o vigor que Nosso Senhor os priveligiou, juntem tanta preguiça e inaptidão nas ocupações diárias e domésticas (…). Os europeus quando não podem andar a pé e se servem das costas destes pretos que levam os brancos nas tipóias ou de outras maneiras, gastam frequentemente cinco ou seis dias num percurso que em qualquer outra parte levaria dois. Nisto não há outra razão senão a preguiça deles. (…) Muita esperança há em que, com o tempo e a ajuda de Deus e pelos nossos cuidados, os naturais (…) se tornem mais acessíveis e mais dispostos a moderar as suas paixões e a enveredar pela senda da razão, aceitando a regra civil e os costumes da religião cristã.

# Cavazzi, Istorica Descrizione, Angola século XVII

Novembro 02 2009 | Antropologia | No Comments »

Antropologia | O Brasil de Nina Rodrigues

O contributo de Nina Rodrigues para a Antropologia brasileira foi fundamental. Fundamental mas não positivo. Inscrito na corrente evolucionista social, Nina Rodrigues dedicou-se à análise social e cultural da Bahia, e em especial da sua capital, Salvador. Nas suas análises acerca da decadência bahiana, em 1890, Nina Rodrigues desconsiderou a mudança da capital para o Rio de Janeiro em 1763, a proibição do tráfico atlântico, os ciclos económicos internos que abalavam o resto do país, o que propiciou a migração de escravos para a Bahia, centrando-se exclusivamente na predominância da raça negra e mestiça como factores desiquilibrados da estabilidade bahiana.
Esta postura de Nina Rodrigues, inscrevia-se bastante bem no evolucionismo social vigente e importado, originário do evolucionismo biológico e das considerações de Darwin. Do seu ponto de vista a situação sócio-económico bahiana encontrava na herança negra — doenças, costumes e religião — os factores explicativos.

No que concerne à religião negra, o Candomblé (assunto que abordaremos mais à frente neste blogue), Nina Rodrigues é também muito claro: trata-se de uma religião inferior, fetichista, contaminadora da população branca. Segundo ele, o monoteísmo católico, proveniente da Europa mais evoluída e civilizada, entrava em conflito com a feitiçaria africana e astrolatria indígena.

Daqui ressalta que Nina Rodrigues, herdou dos pensadores ocidentais vigentes e anteriores, a crença na existência de raças superiores e inferiores. Aplicando tais preconceitos ao Brasil, Nina Rodrigues entendeu que os negros e mestiços representavam um perigo extenso para a sociedade brasileira. As suas ideias influenciaram sobremaneira as políticas sociais no Brasil, de tal forma que a segregação negra se tem mantido até hoje e o direito ao voto só foi conquistado em 1985.

Abril 23 2007 | Antropologia | No Comments »

Antropologia | o confronto da diversidade (2)

Darwin, na sua teorização sobre povos e culturas, ignorou o papel dos colonizadores nas transformações sociais dos povos africanos, indianos e indígenas. A Antropologia estabeleceu o princípio de que o desenvolvimento humano se processava em etapas rígidas, construindo também a noção de estágios de desenvolvimento tecnológico que serviram como critério de comparação entre as diferentes sociedades. Estas proposições tornaram possível a organização das sociedades humanas em graus de maior ou menor desenvolvimento científico, sempre partindo de um paradigma eurocêntrico.

Daqui construiu-se o “darwinismo social”, a proposição de que todos os humanos são desiguais por natureza graças a aptidões inatas. Um racismo histórico, que se manteve até ao século XIX e XIX em certos países e contextos sociais e políticos.


::Nota Conclusiva:: o “darwinismo social” representou uma fase primária antropológica pouco académica, à luz dos conceitos de hoje, apresentando valores e pressupostos construídos a partir de uma visão egocêntrica e de uma análise estereotipada das civilizações. O padrão europeu era usado como comparativo, neste sentido, tornou-se impossível entender as realidades de um povo, facilmente se construíram conceitos e análises racistas.

Abril 18 2007 | Antropologia | No Comments »

||| Antropologia | o confronto da diversidade

::Evolucionismo Biológico e Evolucionismo Social::

Herbert Spencer (1820 – 1903) pode ser considerado como o fundador do racismo científico, tendo em conta as suas teses em torno do “evolucionismo social”, tal como ele o denominou, nas quais Spencer transplantou do campo biológico para o campo cultural, o modelo das tipologias e dos sistemas classificatórios, implementando a noção de diferenças entre os povos e as sociedades.

Este, caracterizou os povos em inferiores e superiores, sendo que aos primeiros correspondiam os colonizados e aos segundos os colonos europeus. À sociedade industrial atribuiu, Spencer, a categoria de mais civilizada e evoluída, tendo por base as suas formas de organização e divisão do trabalho. As demais, foram designadas por primitivas, especificando-as como homogéneas, graças à incapacidade dos seus elementos alterarem artificialmente as suas condições e deste modo promoverem diferenciações económicas. Spencer adianta que, no processo de evolução social, existia uma luta pela supremacia, da qual se estabelecia a superioridade do mais forte e a subordinação do mais fraco.

Charles Darwin (1871 – 1974), influenciado por Spencer, afirmou que da análise comparativa entre raças era possível encontrar diferenças ao nível da constituição, aclimatização, susceptibilidade a determinadas doenças, capacidade mental e emocional. O pano de fundo do racismo biológico ficou bem claro em Darwin:

Por conseguinte, quando os selvagens de qualquer raça foram inesperadamente constrangidos a alterar o seu modo de vida, tornaram-se mais ou menos estéreis e a saúde dos seus filhos foi afectada da mesma maneira e pelas mesmas causas que a dos elefantes e do leopardo da Índia, (…) arrancados das suas condições naturais…Seguramente as raças civilizadas podem suportar mudanças de todos os géneros muito melhor do que os selvagens e sob este aspecto fazem lembrar os animais domésticos…

 

Abril 16 2007 | Antropologia | No Comments »