
É inegavelmente – e fundamental que seja afirmado – que o Candomblé atravessa hoje o período de maior fissura da história. A tal ponto que podemos e devemos afirmar que mais do que nunca hoje o Candomblé se tornou instrumento de negócio e legimitação de uma vaidade ignorante. Essa fissura não tem uma datação ou uma cronologia definida, não se pode (mas poder-se-á qualquer dia) falar num Cisma Religioso. Essa fissura é notória na própria prática da religião, na ritualística e claro na ética dos que se afirmam sacerdotes.
É inegável que tanto no Brasil quanto em Portugal (e este último interessa-nos particularmente) o Candomblé está minado por pais e mães-de-santo que nunca viram um roncó ou camarinha, que colocam CDs a tocar ao invés de terem ogãs, que se fizeram sacerdotes por si mesmos, que maquilham as iniciadas (iyawôs), que trocam o Orisa (Orixá) dos consulentes, que distribuem cargos e atribuem competências a namorados e filhos de carteira recheada, minado de pessoas que não respeitam as regras rituais e que querem à força e num curto período de tempo assumirem o cargo sacerdotal. Neste Candomblé tudo é comprado, os adornos tradicionais foram substituídos por novas tendências pirosas e folclóricas, há qualidades novas de Orixá (Exú Camarão é um bom exemplo) como se a tradição fosse inventada ao estilo Barbie. Há incorporações fingidas, pais-de-santo que roubam jóias e ouro e mudam de cidade batendo com a mão no peito, há enfim uma panóplia de vigarices que criam uma fissura desta modernidade vagabunda e abandalhada face ao tradicional decente e respeitoso.
Cartomantes, massagistas, todas substituíram o termo “espírita” ou “médium” por Mãe-de-Santo. É moda, o português é otário e gosta de ser enganado – ninguém quer ouvir que não nasceu para ser sacerdote ou sacerdotisa, querem sim ouvir que têm capacidades e assim se sentirem especiais. Há ainda aqueles que eram Ogãs no Brasil e chegam a Portugal dizendo que são Pais-de-santo, governando a vida sem trabalhar muito.
Este Candomblé está muito longe de ser respeitoso. A recuperação e preservação do tradicional importa pouco. É feito de banalidades, fingimentos, mentiras, palhaçada pseudo-ritual. Quem consegue colocar um travão a isto?
Alagbê t’ Oxum
Agosto 28 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 2 Comments »

A noção de tempo que tem vigorado nos últimos três séculos nas comunidades brasileiras do Candomblé foi fermentada no caldeirão da tradição Yorùbá, onde o tempo e o devir são olhados num linear contínuo temporal. Essa noção de tempo quando mesclada com a iniciação ritual e seus processos entra em choque com a cultura moderna em que essas comunidades hoje se inserem. Numa sociedade de consumo em que o material supera o espiritual, em que o ter é um processo imediato, em que o possuir é mais valorizado do que o ser, as comunidades do Candomblé atravessam um processo de readaptação muitas vezes incorreto. Essa modernidade religiosa é marcada pelo imediatismo do saber e ter. Ninguém está disponível para ser filho-de-santo e para se limitar ao conhecimento de cada etapa. Toda a gente quer ser imediatamente pai ou mãe-de-santo num espaço de tempo mais curto possível. Mais. Ninguém aceita bem que o acesso ao sacerdócio não advém da vontade própria do sujeito. Não só no Brasil como em Portugal, o sacerdócio do Candomblé tornou-se uma questão de moda que fazem com que a proporção de sacerdotes para filhos é cada vez mais equiparável.
É inegável que em Portugal existem uma boa dezena de sacerdotes afro que nunca entraram num roncó, numa camarinha, que tão pouco conhecem os segredos do culto ou as especificidades das divindades, mas que frequentando um punhado de meses alguma casa de culto e comprando uma mão cheia de livros já se consideram sacerdotes afro. É o fruto do devir e do consumo.
{foto de Claudio Zeiger}
Julho 14 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

A historiografia portuguesa e as orientações histórico-culturais do Ministério da Educação e da Cultural têm esquecido a presença portuguesa em África, para além das fronteiras dos países de língua portuguesa (PALOP). Goa tem permanecido sempre como referência da presença portuguesa noutros contextos culturais. Todavia, na Costa da Mina, em África, existe uma herança portuguesa que não pode ser relegada. A própria especificidade da história da escravatura, do comércio negreiro e da memória colectiva dos povos do Benim e Nigéria passam pelo nome de Portugal. E nós esquecemos. Porto-Novo, capital e segunda maior cidade da República do Benim, foi fundada pelo povo Fon ou Gun no século XVI, tendo posteriormente sido baptizada de Porto-Novo por emissários portugueses que aí, no século XVII, fixaram uma feitoria com o propósito de exportar escravos para as Américas.
Lagos é a maior cidade da Nigéria e a segunda maior do continente africano depois do Cairo e era a capital até 1991, altura em que passou para Abuja. Inicialmente Lagos foi baptizado pelo povo Awori, de ascendência Yorùbá, como Oko, e mais tarde mudou para Eko durante a ocupação Fon. O nome que ainda hoje consta, Lagos, foi dado pelos primeiros portugueses a chegaram à cidade, nomeadamente o explorador Rui de Sequeira, em 1472, e homenageando a cidade algarvia de Lagos, ao mesmo tempo que baptizou a área circundante de Lago de Curamo.
Abril 08 2009 | Acção Política e Social | No Comments »

Aquando da constituição da APCAB em Janeiro de 2006 foram aprovados em Assembleia da República os estatutos da presente associação, que abordam para além da cultura Afro-Brasileira a religiosidade de mesmo cariz. Assim sendo a APCAB é formalmente reconhecida pelo governo português com a instituição em Portugal responsável pela preservação dos ritos afro-brasileiros e pelo controlo de irregularidades cometidas em nome das mesmas. Como prova seguem os artigos dos Estatutos que regulamentam essa delegação de funções:
linha n) do artigo 4º – “Promover e defender as religiosidades Afro-Provenientes, respeitando a Etnia por meio da ética.”
linha o) do artigo 4º – “Havendo Templos Associados, a APCAB, deverá fiscalizar as actividades dos mesmos, a fim de coibir actos abusivos, inadequados, ilegais ou que desvalorizem a Cultura Afro-Brasileira no seu cariz religioso.”
linha q) do artigo 4º – “Não permitir a apresentação e o uso, em festejos, manifestações públicas de qualquer espécie, objectos, insígnias, imagens ou nomes referentes à religiosidade Afro-Brasileira, inclusive indumentárias características ou momentos sagrados como exibição televisiva (quando não aprovados pela presente Associação).”
linha s) do artigo 4º – “Manter o intercâmbio sócio-cultural com as comunidades de Cultura e Religião Afro-Brasileira, visando a criação de um Código de Ética e Disciplina comuns, de modo a preservar a Cultura Afro-Brasileira.”
artigo 29º – “Completam as disposições do presente Estatuto: o Regimento Interno e o Código Nacional de Ética e Disciplina e Litúrgico, bem como os regulamentos e instruções aprovados pela directoria executiva.”
Janeiro 01 2009 | Acção Política e Social | No Comments »
stamos a chegar ao fim do «Ano Europeu para o Diálogo Intercultural» e torna-se imperativo questionar: terá alguém dado pela comemoração? É aceitável admitir que a calendarização da comemoração tem mais de oportunismo simbólico do que de motivação imperativa. Sem ter sido feita uma larga explanação mediática, sem ter educado os media para a simbologia e importância de uma cobertura intensa de todas as actividades que promovam o diálogo intercultural, o Ano Europeu para o Diálogo Intercultural revelou-se limitado no seu campo de aceitação social. Sabendo que os meios de comunicação social prefere o insólito e sensacional à construção de uma agenda cultural.
O projecto revelou-se, em Portugal, um nado-morto. As instituições públicas e privadas com responsabilidade na área sócio-cultural demitiram-se de tarefas que promovessem esse novo paradigma internacional que é o diálogo intercultural ou multiculturalismo positivo. Sentiu-se um grave desinteresse das instituições e organismos nacionais e internacionais. A concentração em torno do choque de civilizações entre o mundo ocidental e o mundo islâmico limitou totalmente o campo de acção do diálogo intercultural.
Num país cuja sociedade é hoje uma manta de retalhos étnicos, o desinteresse público no apoio a causas multiculturais é sinónimo de um complexo social de preconceito camuflado. As políticas culturais do Ministério da Cultura e instituições de grande campo de actuação e repercussão social negligenciaram o diálogo intercultural, tratando o tema como aspecto cultural menor.
Avançamos rapidamente para um país que se demite da educação, da formação cultural e cívica dos cidadãos. A pretexto de outras causas ei-los que metem as mãos nos bolsos e nada fazem.
Novembro 12 2008 | Acção Política e Social | No Comments »
“Iaiá você quer morrer
Quando morrer, morramos juntos
Que eu quero ver como cabem
Numa cova dois defuntos”
(Isto É Bom, lundu de Xisto Bahia)
Lundu ou Lundum é uma dança de origem africana bastante popular na Lisboa do século XVI, tendo sido, por volta de 1780, apelidada de “dança silenciosa e indecente”. Em finais do século XVIII, o Lundu apresenta uma faceta de canção acompanhada à viola. Conheceu o seu apogeu nos finais do século XIX, particularmente entre as leites cariocas, altura em que se fundiu com o tango e a polca dando origem ao maxixe. A passagem do Lundu das comunidades africanas e afro-descendentes para as classes altas brasileiras originou uma alteração estética e conceptual da dança, perdendo o seu fulgor sensual e se tornando numa dança alegre e brejeira.
No Brasil, o Lundu é tido como a primeira manifestação cultural musical afro-brasileira, tendo surgido antes mesmo do semba ou samba, sob a forma de uma dança sensual de origem africana. Em 1798, é publicada a colectânea «Viola de Lereno», um conjunto de composições de Domingos Caldas Barbosa, onde o lundu é referido como género musical. A sua origem étnica é atribuída aos negros Bantu, Angola e Congo, primeiros negros chegados ao Brasil através do sistema escravocrata. Por essa altura o Lundu possuia uma cadência física semelhante ao kizomba actual.
No trajecto directo Angola-Brasil, o Lundu não perdeu a sua feição africana, sensual e lasciva, sendo até ao século XVIII catalogada junto das demais manifestações culturais musicais negras sob o nome de «batuque». Ao contrário, tendo passado por Lisboa, o Lundu foi pulido e europeizado, misturando-se com os folguedos portugueses e adquirindo uma estética suavizada, por forma a entrar nos ambientes selectivos da corte. Escreveu Caldas Barbosa:
“Eu vi correndo hoje o Tejo/Vinha soberbo e vaidoso/Só por ter nas suas margens/O meigo Lundum gostoso/Que lindas voltas que fez/Estendido pela praia/Queria beijar-lhe os pés/Se o Lundum bem conhecera/Quem o havia cá dançar/De gosto mesmo morrera/Sem poder nunca chegar/Ai rum rum/Vence fandangos e gigas/A chulice do Lundum”.
O lundu-dança continuou a ser praticado por negros e mestiços enquanto o lundu-canção passou a interessar aos compositores de escola e músicos de teatro, onde era feito para ser dançado e cantado com letras engraçadas e maliciosas. Já em fins do século XIX, esse aspecto foi intensamente explorado por Laurindo Rabelo, o poeta Lagartixa que, acompanhando-se ao violão, depois de determinada hora improvisava com facilidade lundus especiais ouvidos só por homens.
Outubro 22 2008 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »

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É fundamental tornar a liberdade religiosa matéria de Estado e dotar o ensino de mecanismos para a difusão da mensagem do diálogo religioso.
A Liberdade Religiosa é um direito adquirido, conquistado, e que se consagra como verdadeiro exemplo de democratização social. A laicidade de um Estado nota-se na abertura deste à vivência total e livre da experiência religiosa pessoal e colectiva. Um verdadeiro Estado de Direito é aquele que garante que qualquer cidadão pode exercer a sua fé sem que seja alvo de calúnia, repressão ou preconceito. Esse mesmo Estado é também um Estado que garante o tratamento igual de todas as religiões. Esse Estado é Portugal?
De facto não. Primeiro porque permanece um tratamento preferencial da instituição cristã. Pesem os séculos de poderio económico, político e cultural da Igreja, é chegado o momento de colocar o cristianismo no mesmo nível das demais religiões. Segundo, é fundamental que o estado português promova uma leitura anti-preconceituosa das religiões, chamando todos os representantes das diversas religiões patentes em Portugal e fomente o diálogo inter-religioso, ao mesmo tempo que introduz o ensino plurireligioso nas escolas públicas. Um verdadeiro ensino equitativo, que fornece o mesmo tempo de estudo a cada religião, e não apenas às religiões do livro. Abrindo as portas ao ensino e diálogo religioso o estado português estará a fomentar uma maior abertura social para a mútua compreensão e entendimento. Formar a sociedade portuguesa para a liberdade religiosa é um caminho necessário na vivência democrática do país.
[João Ferreira Dias, vice-presidente APCAB]
créditos da foto: gesteira
Setembro 23 2008 | Acção Política e Social | No Comments »
Setembro 11 2008 | cadernos APCAB | Introduza a sua password para ver os comentários
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