A Fundação Cultural Palmares publicou e nós temos o prazer de disponibilizar aos nossos leitores, uma pequena publicação, ilustrada e divertida, sobre um dos mitos do Orixá Oyá-Yasan. Serve bem para a passagem da tradição aos mais novos. Descarregue aqui.
Dezembro 17 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »
Os novos cientistas sociais, observadores da realidade religiosa de uma janela exterior, vêem-se a si mesmos como posicionados num patamar acima dos observadores internos, considerando-se como mais bem preparados para compreender o campo sócio-teológico do objeto de análise. Ora, esquecem-se que a informação que buscam e que mais validam (isto é particularmente evidente no caso Yorùbá) é precisamente aquela construída de uma perspetiva interna. Informações construídas de fora resultam, não raras vezes, na construção de validades científicas fraudulentas – com a passagem continuada de mitos em torno dos Òrìsà que foram construídos por missionários cristãos. Esquecem-se que de fora só vêem aquilo que lhes é dado a ver, da maneira que lhes é dada a perceber. Chegam a ser ingénuos os espíritos académicos distanciados.
Novembro 20 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

Exú é o Orixá dos caminhos, senhor das encruzilhadas (símbolo das múltiplas escolhas), da comunicação e do axé (àse) da vida, a fecundação.
Ajúbà bará ‘Legbá
Olóde Èsù lónòn
Bará Dage burúkú
Lónòn Bará
Jelù Làlúpo
Èsù Bará
(respeitemos o poderoso Exú,
Dono do chicote, Exú dos caminhos,
Bará que destrói o mal abre os caminhos
Bará mensageiro no som do tambor
abre, senhor do dendê
Exú-Bará)
Outubro 15 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

Quase todo o povo-de-santo conhece o mito que narra o divertimento de Exú passeando o seu chapéu de duas cores. A narrativa é mais ou menos a seguinte:
Certa vez dois camponeses amigos esqueceram de fazer suas oferendas na segunda-feira. Eles eram vizinhos, sendo suas terras separadas por uma grande porteira. Exu colocou sobre a cabeça um chapéu pontudo de duas cores, de um lado vermelho e do outro branco,e foi passear nas fazendas, andando por cima da cerca. Cumprimentou o trabalhador da esquerda e depois o da direita.Assim que Exu foi embora,os dois comentaram sobre o chapéu , que era grande e pontudo chamando a atenção ; houve muita confusão porque um achava que era branco e o outro firmava que era vermelho.Os dois tinham razão em defender seu ponto de vista e, irritados, atracaram-se até a morte. Exu apareceu, dando uma enorme gargalhada. Ele havia se vingado dos dois.
Este mito, que é contado e recontado permanentemente ao ponto de ninguém o questionar, é na verdade uma construção narrativa do Padre Baudin, missionário francês na Nigéria, que procurando por todos os caminhos denegrir o culto aos Orixás, redigiu este e outros mitos que fez circular pela Europa e América, sendo hoje reproduzido pelo povo-de-santo e académicos. A verdade é que este mito é baseado num conto popular de natureza cristã que procura explicitar a natureza perigosa, dúbia e enganadora do Diabo judaico-cristão. O Padre Baudin, na intenção de denegrir o culto Yorùbá associou Exú ao Diabo, com arte e engenho, erro que perdurou na própria natureza da Umbanda.
Setembro 23 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

A lista de divindades ou entidades espirituais superiores do complexo panteão angolano-congolês aqui apresentada não comporta a totalidade das mesmas entidades, servindo essencialmente para explicitar uma ideia diferente que nos cabe mais diretamente, enquanto APCAB e Casa Yorùbá de Portugal. Como já foi aqui falado, o panteão do Candomblé Bantu que hoje é reconhecido, cultuado e analizado não corresponde ao antigo panteão do qual algumas divindades foram aqui apresentadas (ver seção Inkices). O que se passa é que o atual panteão do Candomblé Bantu não é mais do que uma adaptação cultural bantu do panteão Yorùbá. Ficou claro, que as divindades originais pouco têm a ver com o panteão Yorùbá e com o panteão atual do Candomblé Angola e Congo. As especificidades de cada deidade foram dissolvidas pelo devir histórico e pela força cultural Yorùbá no Brasil. É por isso que hoje, o Candomblé Angola e Congo não é mais do que uma visão bantu fragmentada da identidade religiosa dos Candomblés de matriz Kétu, estando cada vez mais a perder-se inclusive os nomes bantu das divindades e a assimilar-se as referências Yorùbá, permanecendo a identidade angolano-congolesa viva nas músicas, toques e ritos iniciáticos, no melhor dos casos. Olhando o atual panteão bantu compreendemos o alcançe da assimilação:
Bombo Njila, Pambu Njila, Aluviá – divindade intermediária entre os homens e os deuses. Sincretizado e cultuado como Èsù (Exú). Possui uma esposa chamada de Vanjira que deu origem à Pomba Gira da Umbanda.
Nkosi, Roxe Mukumbi – Nkisi da guerra e das estradas de terra. Sincretizado a Ògún.
Ngunzu – Engloba as energias dos caçadores de animais, pastores, criadores de gado e daqueles que vivem embrenhados nas profundezas das matas, dominando as partes onde o sol não penetra. Sem sincretismo mas o seu culto está praticamente perdido.
Kabila – caçador e pastor, responsável pelo rebanho das flores. Sem sincretismo mas com pouca referência no culto.
Mutalambô, Lambaranguange – Caçador, vive em florestas e montanhas, nkisi de comida abundante. Sincretizado e cultuado como Òsóòsì (Oxóssi).
Gongobira ou Gongobila – Caçador jovem e pescador. Sincretizado e cultuado com Lògúnede.
Mutakalambô – Tem o domínio das partes mais profundas e densas das florestas, onde o Sol não alcança o solo por não penetrar pela copa das árvores. Com o culto cada vez menos difundido.
Katendê – Senhor das jinsaba (folhas). Conhece os segredos das ervas medicinais. Sincretizado e cultuado com Òsónyìn (Ossain).
Nzazi, Loango – São o próprio raio, entrega justiça aos seres humanos. Sincretizado e cultuado como Sòngó (Xangô).
Kaviungo ou Kavungo, Kafungê ou Kafunjê, Kingongo, Kafundeji – Nkisi da varíola, das doenças de pele, da saúde e da morte. Sincretizado e cultuado como Obàlúwàiyé (Obaluaiê).
Nsumbu – Senhor da terra, também chamado de Ntoto pelo povo de Congo. Sincretizado e cultuado como Omolú.
Hongolo ou Angorô (masculino) e Angoroméa (feminino) – Auxilia na comunicação entre os seres humanos e as divindades (representado por uma cobra). Sincretizados e cultuados como Òsùmàrè (Oxumaré) e Yewá (Ewá) respetivamente.
Kindembu ou Nkisi Tempo – Rei de Angola. Senhor do tempo e estações. É representado, nas casas Angola e Congo, por um mastro com uma bandeira branca. Sincretizado com Ìrokó, embora este mantenha as suas especificidades.
Kaiango – Têm o domínio sobre o fogo. Pouco difundido atualmente uma vez que se mescla com Xangô.
Matamba, Bamburucema, Nunvurucemavula – Qualidades ou caminhos de Kaiango. Guerreira, comanda os mortos (nvumbe). Sincretizada e cultuada com Oyá-Yàsán.
Kisimbi, Samba_Nkisi – A grande mãe. Nkisi de lagos e rios. Sincretizada e cultuada como Òsun (Oxum).
Ndanda Lunda – Senhora da fertilidade, e da Lua, muito confundida com Hongolo e Kisimbi.
Kaitumba, Mikaia, Kokueto – Nkisi do Oceano, do Mar (Kalunga Grande). Sincretizada e cultuada com Yèmonjá (Iemanjá).
Nzumbarandá – A mais velha das Nkisi, conectada à morte.
Sincretizada e cultuada como Nàná Búrúnkú (Nanã).
Nvunji – O mais jovem do Nkisi, Senhora da justiça. Representa a felicidade da juventude e toma conta dos filhos recolhidos. Sincretizada e cultuada como Ibeji.
Lembá Dilê, Lembarenganga, Jakatamba, Nkasuté Lembá, Gangaiobanda – Conectado à criação do mundo. Sincretizado e cultuado como Òòsàálá (Oxalá).
Maio 07 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

Òrìsà do rio Obà, trata-se de uma divindade feminina de face guerreira, sendo muitas vezes chamada de amazona. Ela usa escudo, espada e ofà, o arco-e-flecha que usa para caçar. Obàssí é a Ìyálóode da sociedade Elekòó. Obà é o transbordar de tudo, representa os excessos, as situações que ultrapassaram os limites. É também as águas fortes, as quedas violentas. Obà é a força feminina invencível, vingativa. Obà enfrenta qualquer homem menos aquele que lhe conquistar o coração. É famosa a lenda que conta que Obà cortou a orelha para preparar um enssopado na esperança de conquistar Sàngó, a conselho de Òsun. Quando Obà se manifesta nos Élégun ela cobre a orelha com uma mão. Obà é símbolo do amor e das paixões não-correspondidas, do ciúme e dos dissabores.
Obà é Ìyá-Òsì, a mãe da esquerda, e Bará-Òsì, guardiã da esquerda. Ela protege o lado esquerdo, porque o lado esquerdo é o lado do coração, o lado dos sentimentos e do feminino. Obà é uma guerreira valente, que tudo enfrenta e que se despoja dos seus luxos para viver um amor.
Abril 22 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

Ològúnede ou Lògún-Ede é um Òrìsà do fundamento de Ìjèsà filho de Òsun e Òsóòsì ou Òsun e Érinlè, conforme a tradição e é um dos mais belos Òrìsà da tradição Yorùbá, apesar de ser dos mais jovens. É simultaneamente caçador e pescador, fundindo os àse da mata e das águas, dos seus pais, representando a tríade pai-mãe-filho, universal às religiões. É, algumas vezes, representado como endrógeno, a pureza ausente de sexo, embora essa característica não seja global, uma vez que a sexualidade não constitui tabu (ewo) para os Yorùbá. Também se apelida Lògúnede de bissexual interpretando de forma errada a simbologia de seis meses masculino seis meses feminino que se refere à estadia nas matas e nas águas. Diz-se que com Yèwá formariam o casal perfeito, a beleza pura e perfeita.
Ològúnede mora em Ilésà, uma rica terra Yorùbá. Curiosamente, contrariando o mito de descender de Òsóòsì ou Érinlè, isto é, de ser um Òrìsà-gerado, existe uma corrente que afirma, na região de Ilésà, que Ològúnede deriva de Ólòlún Ode, o que significaria que ele seria o maior entre todos os caçadores e não filho mas pai de Òsòtókansósó, o Òrìsà Òsóòsì. Existem Òrikín de Òsóòsì que o apelidam de Omoode, filho do caçador.
Abril 22 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

Oyá é a divindade do rio Oyá, o Níger, na Nigéria. O seu nome Yàsán, deriva de “ìyá mésàn òrun”, “mãe dos nove òrun”. Trata-se de uma divindade dos ventos, tempestades, raios e da morte. É ela que encaminha os espíritos na sua passagem e comanda o àsèsè, o ritual fúnebre. Diz-se que aprendeu com Sàngó o controlo do fogo e que por isso solta-o da boca quando está em batalha. Oyá advém de “odo ya”, isto é, “rio que rasga” o rio que tem múltiplos afluentes rasgando as cidades e vilas. Ela tem em si os elementos contraditórios – fogo e água (omì e ìnan), motivo pelo qual se representa expressivamente numa tempestade: a chuva intensa e o raio queimando tudo.
Yàsán é uma guerreira nata que rejeita o papel feminino tradicional, é fogosa e mostra o seu amor e a sua raiva nas mesmas proporções. Oyá é a mulher que sai em busca do sustento da família. A sua elevação a Òrìsà adveio-lhe dos amores ardentes que teve com outros Òrìsà aprendendo deles artes e segredos. Algumas passagens da estória de Oyá relacionam-na com antigos cultos agrários africanos ligados à fecundidade, e é por isso que a menção aos chifres de búfalo, símbolos de virilidade, surgem sempre nas suas histórias. Iansã é a única que pode segurar os chifres de um búfalo, pois essa mulher cheia de encantos foi capaz de transforma-se em búfalo e tornar-se mulher da guerra e da caça.
Abril 21 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »