√ Sobre as qualidades de Yemanjá

Yèmonjá é um símbolo/arquétipo divino dos valores éticos e estéticos femininos, ao mesmo tempo que é personificação das águas, àse natural e indispensável. A Yèmonjá, como a cada Òrìsà, estão associados tipos ou qualidades que definem certas personalidades ou tipos psicológicos da mulher na sociedade yorùbá, particularmente atentendo ao facto de que na ausência de outras divindades femininas os Egbá assumiram em Yèmonjá, sua deusa-mãe os diversos estereótipos do feminino, dinanismo esse que se mesclou com a necessidade de readaptação teológica africana em solo brasileiro. São exemplos disso Yèmonjá Ògúntè, esposa de Ògún Alágbédé, que comporta a identidade da beleza e da guerra simultaneamente, ou Yèmonjá Asábá, que manca e desfia algodão, remetendo para as funções das anciãs.

Abril 20 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Oyá contada às crianças

A Fundação Cultural Palmares publicou e nós temos o prazer de disponibilizar aos nossos leitores, uma pequena publicação, ilustrada e divertida, sobre um dos mitos do Orixá Oyá-Yasan. Serve bem para a passagem da tradição aos mais novos. Descarregue aqui.

Dezembro 17 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

√ Perspetiva interior

Os novos cientistas sociais, observadores da realidade religiosa de uma janela exterior, vêem-se a si mesmos como posicionados num patamar acima dos observadores internos, considerando-se como mais bem preparados para compreender o campo sócio-teológico do objeto de análise. Ora, esquecem-se que a informação que buscam e que mais validam (isto é particularmente evidente no caso Yorùbá) é precisamente aquela construída de uma perspetiva interna. Informações construídas de fora resultam, não raras vezes, na construção de validades científicas fraudulentas – com a passagem continuada de mitos em torno dos Òrìsà que foram construídos por missionários cristãos. Esquecem-se que de fora só vêem aquilo que lhes é dado a ver, da maneira que lhes é dada a perceber. Chegam a ser ingénuos os espíritos académicos distanciados.

Novembro 20 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

√ Àdúrà ti Èsù (reza para Exú)

Exú é o Orixá dos caminhos, senhor das encruzilhadas (símbolo das múltiplas escolhas), da comunicação e do axé (àse) da vida, a fecundação.

Ajúbà bará ‘Legbá
Olóde Èsù lónòn
Bará Dage burúkú
Lónòn Bará
Jelù Làlúpo
Èsù Bará

(respeitemos o poderoso Exú,
Dono do chicote, Exú dos caminhos,
Bará que destrói o mal abre os caminhos
Bará mensageiro no som do tambor
abre, senhor do dendê
Exú-Bará)

Outubro 15 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Falso Mito: Exú e o chapéu de duas cores

Quase todo o povo-de-santo conhece o mito que narra o divertimento de Exú passeando o seu chapéu de duas cores. A narrativa é mais ou menos a seguinte:
Certa vez dois camponeses amigos esqueceram de fazer suas oferendas na segunda-feira. Eles eram vizinhos, sendo suas terras separadas por uma grande porteira. Exu colocou sobre a cabeça um chapéu pontudo de duas cores, de um lado vermelho e do outro branco,e foi passear nas fazendas, andando por cima da cerca. Cumprimentou o trabalhador da esquerda e depois o da direita.Assim que Exu foi embora,os dois comentaram sobre o chapéu , que era grande e pontudo chamando a atenção ; houve muita confusão porque um achava que era branco e o outro firmava que era vermelho.Os dois tinham razão em defender seu ponto de vista e, irritados, atracaram-se até a morte. Exu apareceu, dando uma enorme gargalhada. Ele havia se vingado dos dois.

Este mito, que é contado e recontado permanentemente ao ponto de ninguém o questionar, é na verdade uma construção narrativa do Padre Baudin, missionário francês na Nigéria, que procurando por todos os caminhos denegrir o culto aos Orixás, redigiu este e outros mitos que fez circular pela Europa e América, sendo hoje reproduzido pelo povo-de-santo e académicos. A verdade é que este mito é baseado num conto popular de natureza cristã que procura explicitar a natureza perigosa, dúbia e enganadora do Diabo judaico-cristão. O Padre Baudin, na intenção de denegrir o culto Yorùbá associou Exú ao Diabo, com arte e engenho, erro que perdurou na própria natureza da Umbanda.

Setembro 23 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Deuses de Angola e Congo: ponto de situação

 

A lista de divindades ou entidades espirituais superiores do complexo panteão angolano-congolês aqui apresentada não comporta a totalidade das mesmas entidades, servindo essencialmente para explicitar uma ideia diferente que nos cabe mais diretamente, enquanto APCAB e Casa Yorùbá de Portugal. Como já foi aqui falado, o panteão do Candomblé Bantu que hoje é reconhecido, cultuado e analizado não corresponde ao antigo panteão do qual algumas divindades foram aqui apresentadas (ver seção Inkices). O que se passa é que o atual panteão do Candomblé Bantu não é mais do que uma adaptação cultural bantu do panteão Yorùbá. Ficou claro, que as divindades originais pouco têm a ver com o panteão Yorùbá e com o panteão atual do Candomblé Angola e Congo. As especificidades de cada deidade foram dissolvidas pelo devir histórico e pela força cultural Yorùbá no Brasil. É por isso que hoje, o Candomblé Angola e Congo não é mais do que uma visão bantu fragmentada da identidade religiosa dos Candomblés de matriz Kétu, estando cada vez mais a perder-se inclusive os nomes bantu das divindades e a assimilar-se as referências Yorùbá, permanecendo a identidade angolano-congolesa viva nas músicas, toques e ritos iniciáticos, no melhor dos casos. Olhando o atual panteão bantu compreendemos o alcançe da assimilação:

Bombo Njila, Pambu Njila, Aluviá – divindade intermediária entre os homens e os deuses. Sincretizado e cultuado como Èsù (Exú). Possui uma esposa chamada de Vanjira que deu origem à Pomba Gira da Umbanda.

Nkosi, Roxe Mukumbi – Nkisi da guerra e das estradas de terra. Sincretizado a Ògún.

Ngunzu – Engloba as energias dos caçadores de animais, pastores, criadores de gado e daqueles que vivem embrenhados nas profundezas das matas, dominando as partes onde o sol não penetra. Sem sincretismo mas o seu culto está praticamente perdido.

Kabila – caçador e pastor, responsável pelo rebanho das flores. Sem sincretismo mas com pouca referência no culto.

Mutalambô, Lambaranguange – Caçador, vive em florestas e montanhas, nkisi de comida abundante. Sincretizado e cultuado como Òsóòsì (Oxóssi).

Gongobira ou Gongobila – Caçador jovem e pescador. Sincretizado e cultuado com Lògúnede.

Mutakalambô – Tem o domínio das partes mais profundas e densas das florestas, onde o Sol não alcança o solo por não penetrar pela copa das árvores. Com o culto cada vez menos difundido.

Katendê – Senhor das jinsaba (folhas). Conhece os segredos das ervas medicinais. Sincretizado e cultuado com Òsónyìn (Ossain).

Nzazi, Loango – São o próprio raio, entrega justiça aos seres humanos. Sincretizado e cultuado como Sòngó (Xangô).

Kaviungo ou Kavungo, Kafungê ou Kafunjê, Kingongo, Kafundeji – Nkisi da varíola, das doenças de pele, da saúde e da morte. Sincretizado e cultuado como Obàlúwàiyé (Obaluaiê).

Nsumbu – Senhor da terra, também chamado de Ntoto pelo povo de Congo. Sincretizado e cultuado como Omolú.

Hongolo ou Angorô (masculino) e Angoroméa (feminino) – Auxilia na comunicação entre os seres humanos e as divindades (representado por uma cobra). Sincretizados e cultuados como Òsùmàrè (Oxumaré) e Yewá (Ewá) respetivamente.

Kindembu ou Nkisi Tempo – Rei de Angola. Senhor do tempo e estações. É representado, nas casas Angola e Congo, por um mastro com uma bandeira branca. Sincretizado com Ìrokó, embora este mantenha as suas especificidades.

Kaiango – Têm o domínio sobre o fogo. Pouco difundido atualmente uma vez que se mescla com Xangô.

Matamba, Bamburucema, Nunvurucemavula – Qualidades ou caminhos de Kaiango. Guerreira, comanda os mortos (nvumbe). Sincretizada e cultuada com Oyá-Yàsán.

Kisimbi, Samba_Nkisi – A grande mãe. Nkisi de lagos e rios. Sincretizada e cultuada como Òsun (Oxum).

Ndanda Lunda – Senhora da fertilidade, e da Lua, muito confundida com Hongolo e Kisimbi.

Kaitumba, Mikaia, Kokueto – Nkisi do Oceano, do Mar (Kalunga Grande). Sincretizada e cultuada com Yèmonjá (Iemanjá).

Nzumbarandá – A mais velha das Nkisi, conectada à morte.
Sincretizada e cultuada como Nàná Búrúnkú (Nanã).

Nvunji – O mais jovem do Nkisi, Senhora da justiça. Representa a felicidade da juventude e toma conta dos filhos recolhidos. Sincretizada e cultuada como Ibeji.

Lembá Dilê, Lembarenganga, Jakatamba, Nkasuté Lembá, Gangaiobanda – Conectado à criação do mundo. Sincretizado e cultuado como Òòsàálá (Oxalá).

Maio 07 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Obà

Òrìsà do rio Obà, trata-se de uma divindade feminina de face guerreira, sendo muitas vezes chamada de amazona. Ela usa escudo, espada e ofà, o arco-e-flecha que usa para caçar. Obàssí é a Ìyálóode da sociedade Elekòó. Obà é o transbordar de tudo, representa os excessos, as situações que ultrapassaram os limites. É também as águas fortes, as quedas violentas. Obà é a força feminina invencível, vingativa. Obà enfrenta qualquer homem menos aquele que lhe conquistar o coração. É famosa a lenda que conta que Obà cortou a orelha para preparar um enssopado na esperança de conquistar Sàngó, a conselho de Òsun. Quando Obà se manifesta nos Élégun ela cobre a orelha com uma mão. Obà é símbolo do amor e das paixões não-correspondidas, do ciúme e dos dissabores.

Obà é Ìyá-Òsì, a mãe da esquerda, e Bará-Òsì, guardiã da esquerda. Ela protege o lado esquerdo, porque o lado esquerdo é o lado do coração, o lado dos sentimentos e do feminino. Obà é uma guerreira valente, que tudo enfrenta e que se despoja dos seus luxos para viver um amor.

Abril 22 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Ològúnede

Ològúnede ou Lògún-Ede é um Òrìsà do fundamento de Ìjèsà filho de Òsun e Òsóòsì ou Òsun e Érinlè, conforme a tradição e é um dos mais belos Òrìsà da tradição Yorùbá, apesar de ser dos mais jovens. É simultaneamente caçador e pescador, fundindo os àse da mata e das águas, dos seus pais, representando a tríade pai-mãe-filho, universal às religiões. É, algumas vezes, representado como endrógeno, a pureza ausente de sexo, embora essa característica não seja global, uma vez que a sexualidade não constitui tabu (ewo) para os Yorùbá. Também se apelida Lògúnede de bissexual interpretando de forma errada a simbologia de seis meses masculino seis meses feminino que se refere à estadia nas matas e nas águas. Diz-se que com Yèwá formariam o casal perfeito, a beleza pura e perfeita.

Ològúnede mora em Ilésà, uma rica terra Yorùbá. Curiosamente, contrariando o mito de descender de Òsóòsì ou Érinlè, isto é, de ser um Òrìsà-gerado, existe uma corrente que afirma, na região de Ilésà, que Ològúnede deriva de Ólòlún Ode, o que significaria que ele seria o maior entre todos os caçadores e não filho mas pai de Òsòtókansósó, o Òrìsà Òsóòsì. Existem Òrikín de Òsóòsì que o apelidam de Omoode, filho do caçador.

Abril 22 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

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