√ Entrevista APCAB e casamento homossexual

A Associação Vidas Alternativas, através da sua rádio, entrevistou João Ferreira Dias, vice-presidente da APCAB, numa conversa sobre a APCAB, Festa de Oxum e o casamento homossexual visto através da lente afro-brasileira. Podem ouvi-la aqui: http://va.vidasalternativas.eu/?p=1709

Setembro 06 2009 | Acção Política e Social | No Comments »

√ Entrevistas: Rui Cerdeira Branco

A APCAB – através da sua página – está a realizar uma série de entrevistas subordinadas ao tema afro-brasileiro. Pretende-se, com as entrevistas, compreender as diversas leituras que se fazem da identidade e expressão cultural afro-brasileira e da influência da mesma na identidade portuguesa. O convidado de hoje é Rui Cerdeira Branco, técnico superior de estatística no INE, autor do blogue «Adufe».

APCAB: O que lhe sugere o termo «cultura afro-brasileira»?

RCB: A dança/arte marcial “capoeira” foi a primeira coisa que me veio à cabeça perante a associação do termo cultura afro-brasileira. Poderia ter pensado em milhentas outras coisas (a MPB que anda em aniversário solene por exemplo) mas julgo que a capoeira é um bom exemplo da vitalidade, da musicalidade e dos ritos que se podem associar à expressão.

APCAB: Sente que a cultura portuguesa está em mudança, influenciada pela larga presença brasileira em Portugal?

RCB: Mal de nós se assim não fosse. Não tenho o mínimo complexo em assumir que é desejável que essa influência, que dura há centenas de anos, se mantenha e reforce. Uma cultura quer-se viva e efervescente de misturas. Perde quem se fecha e cristaliza, não quem recria pelo contacto com o outro. E depois, em muitos aspectos, estamos todos a olhar-nos ao espelho, um espelho matreiramente alterado que nos oferece multiplas delícias.

APCAB: Candomblé, Orixás, Yemanjá. São palavras familiares?

RCB: Uma infância/juventude influenciada por programas de televisão brasileiros – novelas brasileiras (nomeadamente adaptações de Jorge Amado) – e pela musica popular brasileira levaram a que desde muito cedo o léxico referido me tenha sido familiar. Da mãe de santo ao saravá. Só teve um defeito essa familiariada: durante uns tempos andei enganado pensando que a cultura brasileira (contexto em que encontrei essa simbologia) era a da Baia e tem mais Brasil que isso, certo?

Como se diz lá na minha terra: bem hajam!

Abril 03 2009 | entrevistas | No Comments »

√ Entrevistas: João Silas

A APCAB – através da sua página – está a realizar uma série de entrevistas subordinadas ao tema afro-brasileiro. Pretende-se, com as entrevistas, compreender as diversas leituras que se fazem da identidade e expressão cultural afro-brasileira e da influência da mesma na identidade portuguesa. O convidado de hoje é João Silas, 19 anos, autor do blogue «João Silas».

APCAB: O que lhe sugere o termo «cultura afro-brasileira»?

JS: Bem este termo é bastante amplo, mas se me dessem um X de tempo para eu responder eu tinha obrigatoriamente que falar sobre as origens do Brasil, e como se sabe quando foi colonizado foi por escravos que os portugueses se lembraram de levar para lá. Mas sobretudo a cultura afro-brasileira, no meu ponto de vista está associada com o povo menos dotado de privilégios sociais devido à classe a que pertencem e que são oriundos, famílias negras brasileiras.

APCAB: Sente que a cultura portuguesa está em mudança, influenciada pela larga presença brasileira em Portugal?

JS: Claro. Eu não quero parecer “mauzinho” mas nestes últimos tempos o que não falta são notícias sobre brasileiros que fazem asneiras em Portugal. Agora falando mesmo de cultura, a tentativa dos muitos brasileiros que involuntariamente seguem os seus costumes por cá, eu acho que não afectam nada os portugueses, isto porque talvez sejamos um povo bastante fechado, as interacções sociais existem, mas as mudanças são zero, cada um joga na sua equipa e não há cá misturas, infelizmente. Talvez a presença de futebolistas brasileiros influencie o futebol, mas tirando isso não estou a ver nada que possa ser chamado de costume brasileiro em Portugal praticado por portugueses.

APCAB: Candomblé, Orixás, Yemanjá. São palavras familiares?

JS: Felizmente estamos livres de santos para tudo o que é lado. O povo português que levou bastantes religiões para o Brasil nisso encontra-se mais à frente, cá ninguém morre por causa de suicidios de religiões. Temos também as nossas, mas cada vez mais somos um povo ateu. Tinha ouvido falar em Candomblé, devido ao rap que ouço, pois adoro o rap que é feito no Brasil, aliás o meu grupo prefiro é brasileiro (Racionais MC’s). Nunca tive a curiosidade de pesquisar sobre os outros, não conheço. Fui agora à Wikipédia e já tenho noção do que são, mas não conhecia nenhum, apenas de nome, sem saber o que era.

Abril 02 2009 | entrevistas | No Comments »

√ Entrevistas: Vital Moreira

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A APCAB – através da sua página – está a realizar uma série de entrevistas subordinadas ao tema afro-brasileiro. Pretende-se, com as entrevistas, compreender as diversas leituras que se fazem da identidade e expressão cultural afro-brasileira e da influência da mesma na identidade portuguesa. O convidado de hoje é Vital Moreira, Académico, colonista do «Público» e blogger no «Causa Nossa».

APCAB: O que lhe sugere o termo «cultura afro-brasileira»?

VM: É a cultura brasileira com raízes ou influências africanas, oriundas dos antigos escravos.

APCAB: Sente que a cultura portuguesa está em mudança, influenciada pela larga presença brasileira em Portugal?

VM: Sim, em alguns aspectos, embora limitados.

APCAB: Candomblé, Orixás, Yemanjá. São palavras familiares?

VM: Sim, sou um visitante frequente da Bahia (Salvador, Ilhéus, etc.) e tenho-me interessado por esses temas, por curiosidade. Aliás, fui leitor da obra da Jorge Amado desde muito cedo.

Agosto 27 2008 | entrevistas | No Comments »

√ Entrevistas: Manuel Ricardo Miranda

 

No seguimento do romance «Ginga Rainha de Angola», publicado pela Oficina do Livro, a APCAB convidou Manuel Ricardo Miranda para uma conversa que reproduzimos em seguida:

APCAB: Porquê um romance com temática africana?

 

MRM: Como refiro no prólogo do romance, tudo começou há quatro décadas, quando convivi de perto com um amigo e companheiro de armas, no mato angolano. Ambos milicianos, cumpríamos o serviço militar obrigatório. Ele, dizia-se descendente de uma rainha africana do século XVII e tudo o que teve oportunidade de contar, deixou-me simplesmente fascinado. Os anos passaram-se com outros interesses e afazeres. 

 

Mais recentemente tive disponibilidade para investigar o que os livros contavam sobre essa rainha, que em tempos deixara-me tão curioso. À medida que ia lendo a história da rainha crescia o meu interesse e o desejo de criar um romance tendo como figura central a lendária rainha.

APCAB: O que o fascinou na Rainha Ginga que fecundou a escrita de um livro?

 

MRM: A rainha Ginga é um exemplo de longevidade. Viveu 82 anos de uma vida guerreira, numa época na qual se atingia a velhice aos cinquenta anos. Um outro facto notável e talvez único na história de África, Ginga foi, durante quarenta anos, rainha de um imenso território no coração de Angola. A sua vida, poder-se-á considerar um exemplo de luta permanente contra o tráfico de escravos. Tendo como base o que tive oportunidade de investigar, considero-a uma verdadeira nacionalista.

APCAB: Estarão os portugueses aptos e motivados para a leitura de um romance cuja temática é africana, como acontece no Brasil?

MRM: As raízes brasileiras são indiscutivelmente africanas, nomeadamente angolanas. Milhões de escravos durante mais de dois séculos afluíram ao Brasil e ajudaram com o sacrifício das suas vidas penosas a construir a grande Nação da actualidade. O livro é também um preito de homenagem a esses homens e mulheres.

APCAB: A lusofonia é um conceito bastante em voga mas peca pela verdadeira multiculturalidade. Poderão os livros combater isso? E quando não há espaço para temática?

MRM: Lusofonia é uma palavra verdadeiramente abrangente e de uma riqueza impar. A multiculturalidade é resultante de uma verdadeira amálgama de povos com um passado comum. Oxalá o futuro tenha o mesmo rumo.

APCAB: Sabia que a rainha Ginga é muitas vezes sincretizada, na tradição oral, com a divindade yorubá Oyá-Yasan ou com a divindade bantu Bamburussena?

MRM: Sou pouco conhecedor da associação que se pretende estabelecer entre a rainha Ginga e as divindades que referem. O povo da rainha Ginga pertencia ao grupo étnico banto, ao qual se ramificam várias centenas de subgrupos étnicos distintos, existentes em toda a África subsariana. As suas práticas religiosas eram profundamente animistas, sendo ao longo dos séculos influenciadas por outras religiões e distintas divindades.

APCAB: A identidade cultural portuguesa está em mudança. O que lhe sugere a ideia de uma cultura luso-afro-brasileira?

MRM: Eu diria que já vivemos em Portugal uma cultura luso-afro-brasileira. Para nos apercebermos de tal fenómeno basta simplesmente entrar no café do nosso bairro. Vemos nesse mesmo espaço, vidas partilhadas, com idênticos sonhos e ilusões, africanos, brasileiros e portugueses, falando a mesma língua e trocando opiniões sobre assuntos que de igual modo interessam a todos.   

 

 

 

Agosto 25 2008 | entrevistas | No Comments »

√ Entrevistas: Paulo Querido

 

A APCAB – através da sua página – está a realizar uma série de entrevistas subordinadas ao tema afro-brasileiro. Pretende-se, com as entrevistas, compreender as diversas leituras que se fazem da identidade e expressão cultural afro-brasileira e da influência da mesma na identidade portuguesa. O convidado de hoje é Paulo Querido, jornalista e webwriter, autor do blogue «Certamente!», mentor da rede «Tubarão Esquilo» e a quem agradecemos a existência da nossa página.

APCAB: O que lhe sugere o termo «cultura afro-brasileira»?

PQ: Samba e jazz, vozes e ritmos, tecidos, telas e cores. A cultura africana e a cultura brasileira com essa raiz são sonoras e visuais, são menos dadas às letras.

APCAB: Sente que a cultura portuguesa está em mudança, influenciada pela larga presença brasileira em Portugal?

PQ: Não tenho dúvidas. A influência do Brasil — que vem desde as telenovelas dos anos 70 até à emigração no século XXI — está a aumentar cá, mais depressa nos sectores populares, mais devagar nos sectores que habitualmente designamos por elites.

A influência é tanto positiva — abertura da língua, grau de risco, extroversão — quanto é negativa — vida individual menos valorizada, tendência consumista agravada, a cultura de “viver o presente”, que é um traço lastimável da modernidade, e que se acelerou entre nós por via da emigração de trabalhadores avençados e em trânsito.

APCAB: Candomblé, Orixás, Yemanjá. São palavras familiares?

PQ:  Sim — no meu caso, há 30 anos, vai para 40… Menos candomblé e mais Yemanjá. Liguei-me na bossa nova ainda ao tempo de Caetano Veloso exilado em Londres e tive um período em que só vestia de branco. A Baía também me chegou trazida pelo Corto Maltese. Mas eu sou ateu por todos os lados e por esse também: gosto do lirismo, do purismo, do secretismo, gosto sobretudo das histórias, quando são bem contadas. 

Agosto 24 2008 | entrevistas | No Comments »

√ Entrevistas: Iyá Sussu

 

 O sol batia sossegadamente sobre a planície ribatejana. O céu azul da cor das contas de Oxóssi. Os girassóis, amarelos, combinando com as frestas da casa avisavam que a casa é de Oxum. Iylê Axé Iyá Odô de Iyá Sussu.

P: O que são os Orixás?

 

R: Os Orixás são divindades que representam as forças da natureza. Cada elemento natural representa uma divindade do panteão afro-brasileiro. Por isso Oxum é a deusa dos rios, Yemanjá a deusa dos mares, Ossaîn o deus das plantas, etc.

P: O que é o Candomblé?

R: O Candomblé é uma religião de origem afro. Com os negros a religião foi-se formando, através das preces, dos momentos rituais, da organização do culto. O culto foi levado para o Brasil pelos escravos e nas senzalas se formou a religião do Candomblé, como o conhecemos, unindo negros de diferentes aldeias onde se cultuavam diferentes divindades, os Orixás. Ao longo dos anos o Candomblé foi-se espalhando, por sua beleza, conquistando a adesão dos brancos.

P: O que a trouxe ao Candomblé?

R: Eu procurava o meu caminho, as minhas raízes com a terra, com a natureza. Eu sentia a minha ligação ao sobrenatural. Eu dizia e acontecia. Passei por várias religiões, mas nenhuma foi capaz de me satisfazer. Em Portugal visitei dois terreiros, embora um não tivesse “mexido” comigo. Mas senti que aquilo estava muito próximo do que eu procurava. A partir daí decidi partir à procura das minhas raízes, do encontro do meu lugar. Eu andava a sonhar com uma mãe-de-santo negra e pequenina. Já lá vão muitos anos mas lembro bem. Procurei informação de terreiros na Bahia, pois eu sabia que era lá que os negros tinham deixado as suas tradições. Telefonei para diversos terreiros perguntando como era a mãe-de-santo da casa. Eu procurava uma pequenina, gordinha e negra. Ao fim de vários telefonemas, atendeu uma mãe-de-santo que correspondia à discrição. Era ela e estava me esperando fazia alguns anos.Iyá Nitinha de Oxum, da Casa Branca do Engenho Velho, o templo mais tradicional do Candomblé no Brasil. Ela me chamou e eu fui.

P: Qual foi a coisa mais importante que aprendeu com Iyá Nitinha?

R: Ela me ensinou muita coisa. A hierarquia, a distribuição dos cargos, a importância da estrutura. A viagem que fiz com ela à Argentina foi um marco importante. Nela aprendi a fazer iniciadas, um axexê, uma forma de estar dentro da religião. Acima de tudo aprendi com ela o quão importante é ser mãe-de-santo. A influência e a responsabilidade. Na minha iniciação Mãe Nitinha me disse: “chegou o dia da felicidade”, nunca mais vou esquecer essas palavras. Depois ela me disse que eu tinha nascido para ser Iyalorixá, como ela e as outras antigas. Não tinha nada a ver com a vontade de ser mãe-de-santo, era um destino, um fardo também. Ela me ensinou a humildade. Não a humildade dela, porque uma iyalorixá não é, nem pode ser humilde, mas a humildade dos filhos. A forçosa dela marca-me muito. Não consegui aprender a sua calma.

P: Que recordações mais marcantes guarda do Candomblé por onde passou?

R: A festa de Oxalá no Rio de Janeiro, na casa do Pai Jô. A festa de confirmação como pai-de-santo de um irmão de santo, filho de Logunedé, também no Rio de Janeiro. Sempre acompanhada pela minha mãe. A viagem à Argentina claro, com as nove iyawô, o axexê de Mãe Gladys, e a confirmação dos novos cargos. Jamais esquecerei o dia em que acordei sem cabelo, na minha iniciação. É inesquecível o som dos clarinetes na Casa Branca dando início às festividades. Acordar assim para ir para o Axé é único.

P: O Candomblé começa a ganhar expressão em Portugal. O que tem a dizer sobre isso?

R: Felizmente por um lado que isso está acontecer. É sinal de que as pessoas estão a dispertar para as energias da natureza, para aquilo que o Candomblé tem para oferecer. Por outro lado, e infelizmente, muita gente está se aproveitando do nome do Candomblé para ganhar dinheiro fácil, para explorar as pessoas sem saberem nada ou quase nada dos segredos da religião. O Candomblé está na moda. Toda a gente quer ser pai ou mãe-de-santo como quem quer ser do jet7. Basta-lhes uma obrigação (quando a fazem) para se afirmarem como sacerdotes afro. Não passa por aí.

P:

O que procuram as pessoas no Candomblé?

R: Numa das vertentes, as pessoas que recorrem ao Candomblé pensam que não há impossíveis, que conseguimos resolver tudo, quando na verdade há coisas que os Orixás querem que aconteçam assim. Depois há muita a gente à procura de fazer mal aos outros — amarrações, feitiços, etc. Felizmente há também aqueles que procuram por curiosidade, por necessidade de desenvolvimento espiritual ou até por estudo, como os antropólogos.

P: O que significa para si ser Iyalorixá?

R: Primeiro uma responsabilidade muito grande. Independentemente disso requer saber compreender os outros, ajudá-los, ouvindo-os quando é necessário, reprender quando é forçoso fazê-lo (embora a maioria não goste de ouvir a verdade).

P: Quem a procura mais: portugueses ou brasileiros? Porquê?

R: Curiosamente são mais os portugueses, de ambos os sexos, não tem isso de “questão feminina”. Os homens hoje procuram ajuda espiritual e prática no Candomblé. Isto porque a maioria dos brasileiros são da Igreja Evangélica. Infelizmente, esquecendo as suas raízes afro-brasileiras.

P: O que tem a dizer sobre o «sincretismo». Chegou a altura de eliminar a influência católica no Candomblé, como fala Iyá Stella?

R: Acho que sim. Já deveria ter chegado há mais tempo. Eu própria sinto esse peso no Brasil. Não é fácil combater algo que está tão enraizado das pessoas. É um caminho lento.

P: Acha que algum dia o Candomblé terá uma presença na cultura portuguesa como tem na cultura brasileira?

R: Tenho a certeza que sim. Primeiro, o Papa João Paulo II deu um passo importante na diversidade religiosa, ao aceitar o Candomblé como religião. Depois as pessoas vão-se chegando por curiosidade. E a cultura nasce dos hábitos. O Candomblé chegou e vai ficando.

P: Que mensagem quer deixar aos leitores?

R: Não irem pelas conversas de “fuxico”, do “diz que disse”, muitas vezes na passam de invenção. Cuidado com o que ouvem e lêem, porque depois falam de coisas que não são. Sejam também críticos com o que vêm. Informem-se acima de tudo, e procurem a informação cuidada.

 

Agosto 01 2008 | entrevistas | No Comments »