√ Transas e transes: sexo e género nos cultos afro-brasileiros, um sobrevôo

(…) Valorizando o ponto de vista dos médiuns e filhos-de-santo, contra as concepções do pesquisador, é possível melhorarmos significativamente a compreensão que temos sobre as relações de gênero e o espaço concedido à sexualidade nesses cultos. Isso porque poderemos olhar com menos constrangimentos teóricos e, quiçá, teológicos as delicadas relações que se tecem quando a prática da possessão entrelaça humanos, deuses e espíritos em tramas que envolvem desejos sexuais, elos afetivos e papéis de gênero comos diferenciais de poder que atravessam todas essas inter-relações.

# Patricia Birman, [link]

Outubro 15 2009 | Antropologia and Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

√ Mito, possessão e sexualidade no candomblé

Joãozinho da Goméia, primeiro Sacerdote homossexual.

A fim de sugerir o orixá pessoal daquele que acaba de chegar, é comum o povo-de-santo se remeter, por exemplo, à sexualidade assumida pelo recém-chegado. Um indivíduo cujo comportamento é acentuadamente feminino, logo será categorizado como filho de orixá feminino. Mitos e arquétipos serão lembrados para explicar comportamentos, condutas ou preferências sexuais e que destoam, muitas vezes, dos padrões dominantes na cultura brasileira. (…) De receptáculo a recipiente, são muitas as metáforas empregadas na definição do corpo-moradia temporária dos deuses:vaso, vasilhame, veículo etc. Todos lhes proporcionam hospedagem. Para ser hospedeiro, exige, quando preciso for, uma reconfiguração das noções de gênero. Estamos a dizer que além de possibilitar a aproximação entre dois mundos distintos e distantes (mundo terreno e mundo ancestral), a possessão é um eficaz operador de alteridade. Em outras palavras, independente da orientação homo ou heterossexual, um homem pode ser consagrado às deusas Iansã, Iemanjá ou Oxum e rodar-no-santo paramentado com trajes, adornos e outros objetos rituais femininos.

# Milton Silva dos Santos [link do artigo]

Outubro 02 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Sexo, gênero e homossexualidade. O que diz o povo-de-santo paulista?

Preconceito e discriminação se encontram disseminados, explícita ou dissimuladamente, em todos os lugares e religiões. Contudo, se comparado com outras crenças, o candomblé tem se mostrado mais aberto aos homossexuais, permitindo-lhes ocupar todos os postos previstos na hierarquia ritual. Embora estejam entre os que menos discriminam o indivíduo por razões de preferência sexual, os candomblecistas reproduzem certos discursos e argumentos articulados à moralidade cristã e que dão sustentação à hierarquia de sexo/gênero. Conforme o depoimento de outro sacerdote, a base do candomblé nagô-queto praticado no Brasil só prevê o “masculino” e o “feminino”. “A gênese ioruba – acrescenta – pensa no homem e nas diversas coisas que o homem pode ser. Ele pode ser branco, preto ou amarelo. Ela só não contempla o terceiro sexo”. [link do artigo]

Comentário:
Embora a moralidade cristã possa estar presente nos Terreiros de Candomblé, fruto das articulações históricas com a Igreja Católica (por imposição) e com a Umbanda (por dinâmica natural), a verdade é que não existem concepções religiosas que prevejam a homossexualidade como elemento natural da humanidade, uma vez que a sobrevivência da espécie sempre assentou na relação entre o masculino e o feminino. Todavia, é errado afirmar que a hierarquia religiosa só prevê o masculino e o feminino, na acepção proposta no artigo. De fato, a hierarquia só prevê masculino e feminino, enquanto género, mas importando se esse masculino é na orientação feminino, e vice-versa.
Outro aspeto tocado no artigo e que é de extrema sensibilidade, trata-se do comportamento ritual dos fiéis. Refere Milton Silva dos Santos, autor do artigo, que a homossexualidade nem sempre é bem-vista nos Terreiros de Candomblé, particularmente se o sacerdote for heterossexual. Na verdade não se trata de mal encarar a homossexualidade, no caso citado, o que se trata, isso sim, é a necessidade de manter uma certa aparência de seriedade, respeito e simplicidade inerentes à prática religiosa do Candomblé. Não se aceitam comportamentos enérgicos ou de euforia, contrários à seriedade ritual. Portanto, não se trata da homossexualidade per si, mas antes de comportamentos indecoros, e o que muitas vezes se chamam, nos candomblés, de “veados histéricos”. Essa feminilidade festiva é mais largamente presente nos Terreiros em que o sacerdote é homossexual, por arrastamento dos próprios comportamentos assumidos pelo líder da Casa.
Seja como for, essa questão sensível da seriedade e da feminilidade expressiva alimenta muitas vezes falsas interpretações acerca da relação de alguns Terreiros com a homossexualidade. Se a orientação sexual do sujeito não influi na aceitação e integração nos meandros da Casa, comportamentos indecoros e/ou desrespeitosos influem, independemente da sexualidade do sujeito que os pratica. O fuxico é sem dúvida um elemento integrante das comunidades-terreiro.

Setembro 30 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »