√ Poesia Afro-Brasileira

As expressões “literatura negra” e literatura “afro-brasileira” são empregadas para nomear alguns tipos de produções artístico-literárias que podem estar relacionadas tanto com a cor da pele de quem as produz, quanto com o fato de nelas serem trabalhadas, com maior intensidade, questões que dizem respeito à presença de tradições africanas disseminadas na cultura brasileira. As alterações que as tradições africanas sofreram no Brasil, estão presentes na capoeira, no candomblé, na macumba, no congado e em outros rituais preservados pelo povo. A literatura também assume essas tradições assumindo-as, particularmente, como estratégias de reinvenção e modulação de forças que se exibem em diferentes na cena do texto ou na linguagem que o produz.

# Maria Nazareth Soares Fonseca [link]

Outubro 16 2009 | Literatura Afro-Brasileira | No Comments »

√ Quem pariu a cultura afro-brasileira?

Na discussão sobre a identidade afro-brasileira cabe sempre a velha questão: de todos os povos africanos qual foi afinal aquele que mais contribuiu para a construção de uma identidade brasileira de raiz africana? As respostas são tão díspares quanto a própria natureza dos inquiridos. Os mais apaixonados, mais próximos ou descendentes da cultura Bantu (de que podemos citar o ilustre historiador angolano Simão Souindoula, Vice-Presidente do Comité Científico Internacional do Projecto da UNESCO “A Rota do Escravo”) dirão que foram esses negros angolano-congoleses do velho reino Bantu que mais marcaram a identidade afro-brasileira, com os seus termos e vocábulos de maior circulação e mais enraizados no quotidiano brasileiro,  com o semba e a capoeira. Os que preferem, adotaram ou descendem da cultura jeje-nàgó dirão que foram estes os que mais contribuíram para a formação dessa identidade. Chegados em plena construção de espaços urbanos, com uma memória étnica e religiosa mais fortes, foram fundamentais na construção do Candomblé, com os seus Orixás e Voduns, com o seu jogo-de-búzios erindinlogun, com seus ilus e agogôs.

As perspetivas alternam-se. Seja como for falamos de planos de influência que se materializaram de forma distinta. A cultura bantu aportou ao Brasil trezentos anos antes da nagô e marcou a luta quilombola e as grandes manifestações artísticas afro-brasileiras: samba e capoeira. Já a cultura jeje-nagô foi determinante no plano religioso, com o Candomblé a ser estruturado a partir dos padrões destes últimos, sendo que mesmo o Candomblé Congo e Angola se limitou a reproduzir o ethos nagô numa perspetiva e numenclatura bantu.

{foto do arquivo do jornal ‘A Tarde’}

Julho 22 2009 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Os Agudá

A antiga Costa dos Escravos, e sobretudo o Benim, constitui, ao que parece, o único exemplo no mundo de implantação de uma cultura de origem brasileira que consegue levar vida própria e independente. De fato, a presença brasileira foi tão forte nesta região, entre os séculos XVIII e XIX, que poder-se-ia falar de uma espécie de coloni-zação informal. Foi principalmente por intermédio dos brasileiros — em conseqüência direta do tráfico de escravos — que esta região teve acesso, de maneira sistemática, a bens manufaturados, como armas de fogo, entre outros produtos, a construções duráveis, e a uma língua de expressão universal, entre outros exemplos.
     A presença brasileira nesta região da África ganhou força a partir da construção do Forte de São João Baptista de Ajuda, em Uidá, que era ligado administrativamente ao vice-rei do Brasil, e se constituiu em ponto de apoio fundamental às atividades dos negreiros baianos lá estabelecidos. Mas a paisagem humana da região se modificou pro-fundamente com o retorno dos antigos escravos do Brasil, após a deportação de centenas deles que tinham participado da grande revolta havida na cidade da Bahia em 1835. Por diferentes razões, milhares de escravos libertos no Brasil tomaram então o caminho de volta à África até o começo do nosso século. Esses antigos escravos tinham origens diversas e se organizaram socialmente a partir da experiência vivida no Brasil, o que lhes permitiu se assimilarem aos brasileiros já estabelecidos na região. Seus descendentes — tanto os dos brasileiros quanto os dos antigos escravos — são conhecidos até os nossos dias como os ‘brasileiros’ ou ainda como os agudás. Celebram o Nosso Senhor do Bonfim, cantando em português, comem feijoada e dançam a burrinha, um folguedo anterior ao bumba-meu-boi.1
     O termo agudá é utilizado, nesta região da África, para designar, em iorubá, fom ou mina, os africanos que possuem sobrenome de origem portuguesa. Na Nigéria do século passado, todos os católicos eram igualmente chamados de agudás (Cunha, 1985, p. 189), e no Togo atual, por sua vez, são assim designados também os membros da colônia libanesa, síria ou indiana.2 A palavra agudá teria se originado da transformação da palavra ‘ajuda’, nome português da cidade de Uidá, devido ao já citado forte.3 Construído no final do século XVII4 e hoje transformado em Museu Histórico, este forte é uma referência maior da presença brasileira no golfo do Benim. Ainda que tenha sido, a rigor, um estabelecimento português, na verdade sua construção foi uma iniciativa dos comerciantes baianos, que pagaram todos os custos, inclusive os de manutenção. Além do que, como já observamos, ele se encontrava ligado administrativamente ao vice-rei do Brasil, de onde vinha a maior parte da sua guarnição (Mattoso, 1990, p. 34; Verger, 1968, pp. 140-1). Depois da independência do Brasil, o forte passou a depender do governador da província portuguesa de São Tomé e Príncipe. Em francês, a língua corrente no Benim atual, os agudás são chamados e chamam a si próprios simplesmente de “brésiliens”, entre aspas quando por escrito.5
     O fato é que os agudás têm origens diversas e se encontram atualmente em todas as classes sociais, sendo católicos, na maioria, ou muçulmanos. A maior parte deles, sem dúvida, é constituída por descen-dentes de traficantes ou de comerciantes brasileiros ou portugueses estabelecidos nesta costa, ou ainda por descendentes de antigos escravos retornados do Brasil. Mas existem também aqueles cujos ancestrais nunca tiveram ligação com o Brasil, embora fossem social ou economicamente ligados aos brasileiros, e tenham sido então absorvidos pela dinâmica cultural destes.
     Libertos no Brasil, esses antigos escravos retornados não o eram, entretanto, na África, onde continuavam sendo considerados escravos pela grande maioria dos autóctones. De fato, sejam vendidos ou dados, estes indivíduos que tinham partido como escravos — portanto já excluídos desta sociedade à qual estão de volta — se encontram então completamente alienados da estrutura social autóctone. Eles são dife-rentes dos outros, vestem-se como os brancos, comem com talheres e se dizem católicos, na maioria, ou muçulmanos. Pedreiros, marceneiros, carpinteiros, alfaiates, comerciantes no sentido capitalista do termo, entre outras profissões, além de serem muito freqüentemente alfabetizados, consideram-se do lado do progresso e da modernidade diante de uma sociedade que eles percebiam antes de tudo como primitiva e selvagem. Esta sociedade, por sua vez, continua vendo-os como escravos, a despeito de suas “maneiras de branco”.
     A identidade étnica constrói-se a partir da diferença (Poutignat e Streiff-Fenart, 1995, p. 41), ou seja, em relação ao outro. Como enfatiza Cunha (1985, p. 206), “o que se ganhou com os estudos sobre a etnicidade foi a noção precisa de que a identidade é construída de maneira situacional e por contraste, ou seja, que ela constitui uma resposta política a uma determinada conjuntura, uma resposta articulada com as outras identidades envolvidas, com as quais forma um sistema”. A construção da identidade baseia-se, portanto, em uma estratégia de valorização das diferenças, e neste aspecto, a situação é muito clara: os antigos escravos retornados consideram os autóctones como selvagens, e continuam sempre vistos por estes como escravos que imitam as “maneiras do branco”. No seu conjunto, os antigos escravos — sejam de origem iorubá, fom, mina ou outras — só tinham em comum entre si o fato de terem sido escravos no Brasil, de falarem português, de terem “maneiras de branco” e de se dizerem católicos. É então com os brancos, no caso os brasileiros há muito estabelecidos na Costa, que eles vão se identificar e estabelecer alianças. E como ‘brasileiros’ serão considerados.
     Foi justamente a partir da experiência de vida adquirida do Brasil, comum a todos eles, que os antigos escravos conseguiram assimilar-se aos agudás — como já eram chamados os brasileiros estabelecidos na região — e assim compartilhar seu lugar na sociedade local. Esta experiência permitiu-lhes, sobretudo, se inserir na economia do lado dos que davam as ordens, e não simplesmente como força de trabalho. No momento em que o confronto entre a cultura tradicional e o capitalismo em expansão adquiriu contornos mais nítidos na região, eles estavam capacitados a assumir o papel de senhores e a impulsionar a economia ao lado dos comerciantes e dos traficantes brasileiros. Estes últimos os acolheram muito bem e os utilizaram para desenvolver os seus negócios. A reunião desses dois grupos — um composto pelos comerciantes e traficantes brasileiros ou portugueses e o outro pelos antigos escravos retornados — desenhou o perfil da comunidade agudá tal qual ela é hoje. Nela encontramos ao mesmo tempo a soberba dos senhores de escravos — condição que a maioria realmente adquiriu desde a sua chegada de volta à África — e os hábitos de escravos adquiridos no Brasil.
     Ora, foi exatamente a partir da sua própria condição de escravos, ou seja, na sua experiência da escravatura no Brasil que eles encontraram a matéria-prima para construir uma nova identidade coletiva que lhes permitiu exercer um papel na vida social e econômica como ‘cidadãos de primeira classe’ na sociedade que os havia rejeitado.
     Os agudás representam hoje cerca de cinco porcento da população do Benim, e são reconhecidos sobretudo pelos sobrenomes de origem portuguesa, e por alguns indicadores de identidade. Entre os mais visíveis estão a festa de Nosso Senhor do Bonfim, comemorada também em janeiro, e o folguedo da burrinha, já citados. Estas festas permitem aos agudás explicitarem sua identidade através da representação daquilo que lhes é peculiar, como veremos nas fotos a seguir.
     Desempenha também um papel importante a família de Souza, descendente do baiano Francisco Félix de Souza, que foi vice-rei de Uidá com o título de chachá, e nessa qualidade exerceu o monopólio do tráfico negreiro no antigo reino do Daomé na primeira metade do século XIX. Atualmente apenas com funções puramente simbólicas, como próprio rei de Abomé, o oitavo sucessor de Francisco Félix de Souza ainda é uma das personalidades mais importantes do país, e uma referência para a comunidade ‘brasileira’ do Benim.

“Agudás – from Africans in Brazil to ‘Brazilians’ in Africa”

Milton Guran

Junho 16 2009 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Bumba meu boi

O “bumba-meu-boi” é uma das mais tradicionais manifestações populares e culturais brasileiras. As suas raízes estão no Ciclo do Gado, no século XVIII, e nas relações raciais marcadas pelas desigualdades entre senhores dos engenhos e servos da senzala. Contado e recontado através dos tempos, na tradição oral nordestina, e depois espalhada pelo Brasil, a lenda fundadora adquire contornos de sátira, comédia, tragédia e drama, conforme o lugar em que se inscreve, mas sempre levando em consideração a estória de um homem e um boi, ou seja, o contraste entre, por um lado, a fragilidade do homem e a força bruta do boi e, por outro lado, a inteligência do homem e a estupidez do animal.

Do ponto de vista teatral e estético, o folguedo deriva da tradição portuguesa e espanhola, não só do ponto de vista do desfile como ainda na representação, reconstituindo permanentemente a tradição encenarem peças religiosas de inspiração erudita, mas destinadas ao povo para comemorar festas católicas nascidas na luta da Igreja contra o paganismo. Esse costume foi retomado no Brasil pelos Jesuítas em sua obra de evangelização dos indígenas, negros e dos próprios portugueses aventureiros e conquistadores no catolicismo, por meio da encenação de pequenas peças.

Como dança dramática, o bumba-meu-boi adquire através dos tempos, algumas características dos autos medievais, o que lhe dá o seu caráter de veículo de comunicação. Simples, emocional, direto, linguagem oral, narrativa clara e uma ampla identificação por parte do público, tomando semelhanças com a comédia satírica ou tragicomédia pela estrutura dramática dos seus personagens alegóricos, os incidentes cômicos e contextuais, a gravidade dos conflitos e o desenlace quase sempre alegre, que funciona como um processo catártico.

{créditos de imagem} {fonte: Francisca Ester de Sá Marques}

Junho 08 2009 | Património Imaterial | 1 Comment »

√ Capoeira classificada como património cultural brasileiro

Apesar de representada na arte pelo menos há dois séculos e de popular nos últimos vinte anos por todo o mundo, somente agora, a 15 de Julho de 2008, a capoeira foi classificada como património cultural brasileiro passando a figurar como «Bem Cultural de Natureza Imaterial». Luiz Fernando de Almeida, presidente do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), afirmou:

 

O registro do Ofício dos Mestres de Capoeira e da Roda de Capoeira como forma de expressão é mais um símbolo de uma vontade política que não se encerra no Iphan ou no Ministério da Cultura, mas que reflete o desejo maior da sociedade de promover e valorizar as expressões culturais vinculadas aos setores culturais historicamente excluídos das políticas de Estado.

A iniciativa vem dar ainda mais cor ao já de si colorido ADN cultural brasileiro, passando a figurar explicitamente aquilo que implicitamente já constituía parte integrante da identidade multicultural brasileira. A APCAB congratula o governo brasileiro pela iniciativa, acreditando que a promoção das heranças culturais e étnicas no Brasil são o melhor caminho para a construção de uma identidade moderna e autoconsciente.

 

 

 

Julho 21 2008 | Identidade Afro-Brasileira | 2 Comments »

Multiculturalidade Portugal – Brasil

© roda de samba numa favela brasileira

O senso comum sabe que a cultura brasileira acenta nas novelas, no samba e Carnaval, no futebol e capoeira, e claro na música que recebemos diariamente ao longo de décadas. Assim, a influência exercida pela cultura brasileira sendo nula, não deixa de não aceitar casos isolados e de admitir uma abundância de manifestações brasil-provenientes que circulam no nosso quotidiano.

O mito da influência tendo nascido nos anos 80 com as primeiras novelas, rapidamente se dissipou, anulada por uma fraca inculcação de vocábulos na linguagem corrente nacional. Por outro lado, a literatura foi uma componente de influência entre as décadas de 1960 e 80, em especial pela “pena” de Jorge Amado.


As manifestações de massas assumiram rápida popularidade e serviram para uma inserção mais fácil dos imigrantes brasileiros em Portugal. As escolas de samba chegadas nos anos 80, as escolas de capoeira, os bailes de Carnaval e blocos luso-brasileiros cresceram, tornando culturalmente activos os imigrantes brasileiros.

Outro campo importante do nível de real inserção, prende-se com a religião. O facto de Portugal ser um país essencialmente católico favoreceu a inserção nas Igrejas, mas não só. A Igreja Universal do Reino de Deus toma um carácter intenso no Brasil, e muitos dos brasileiros recém-chegados procuram estes templos, como forma de integração e reencontro com suas crenças. Mas e os outros brasileiros não católicos, os Cariocas e Bahianos afro-crentes? Se à primeira vista estes parecem ficar sem solução, um conhecimento exacto das crenças religiosas afro-brasileiras e respectivas casas de culto, leva-nos a constatar que os Terreiros de Umbanda e Candomblé existentes, ou são dirigidos por imigrantes brasileiros ou um grande número de fiéis oficiantes do templo é cidadão de além-mar. Mais, numerosos brasileiros recém-chegados a Portugal, procuram esses espaços de culto como primeiro contacto com outros imigrantes da mesma proveniência, bem como alojamento temporário ou até definitivo.


Deste modo falar de uma influência cultural e religiosa, não sendo na medida uma realidade, não deixa porém de ser uma verosimilhança, pois o samba, o pagode, o forró, são cada vez mais dançados, a capoeira cada vez mais praticada e as religiões afro-brasileiras cada vez mais procuradas, quer por brasileiros imigrantes como ponto de contacto com a cultura deixada, como por um crescente número de portugueses que se identificam com as práticas usuais do país irmão.

Julho 02 2007 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »