√ A figura do Ogan

Ele circula pela cena seguro, confiante, respeitado. Seu lugar, quando não está tocando, é geralmente perto da plataforma sobre a qual se instalam os tocadores de atabaques, e nas cerimónias em que os deuses, nas pessoas possuídas por eles, cumprimentam e abençoam aqueles membros do culto e espectadores a quem desejam favorecer, eles são invariavelmente escolhidos. No intervalo, quando os “deuses” estão sendo vestidos, ele entra no barracão ou fica à volta, conversando com amigos e os músicos que o acompanham, até chegar novamente a hora de retomar seu lugar.

# Herskovits

Fevereiro 12 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Desafricanização da Umbanda

Neste esforço para legitimar a Umbanda como religião original e evoluída, os participantes procuraram cortá-la de suas raízes Afro-brasileiras. A origem da Umbanda foi traçada no Oriente de onde, se dizia, teria se espalhado para a Lemúria (um continente perdido), e daí para a África. Na África, continua a estória, a Umbanda degenerou em feiticismo. (…) A influência africana não era assim negada, mas olhada como uma corrupção da tradição religiosa original, na sua fase anterior de evolução. A Umbanda, teria ficado exposta ao barbarismo africano, na forma vulgar dos costumes, praticada por povos de costumes rudes, defeitos psicológicos e étnicos.

# Tina Gudrun Jensen.

Fevereiro 05 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | 2 Comments »

√ Axé

É a força que assegura a existência dinâmica, que permite o acontecer e o devir. (…) É o princípio que torna possível o processo vital. Como toda a força, o àṣẹ é transmissível; é conduzido por meios materiais e simbólicos e acumulável.

# Juana Elbein dos Santos

Janeiro 29 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ O Candomblé e o poder feminino

Para iluminar ainda melhor este fato – o da chefia feminina – torna-se importante destacar alguns fatores que foram incisivos para que a mulher viesse a ocupar o ápice da hierarquia religiosa, além dos outros que foram elencados no trajeto feminino da África para o Brasil. As mulheres africanas pertencentes a etnias fons e iorubás exerceram em seus respectivos reinos um poder político importante. É claro que no presente da escravidão esse poder teve que ser ressignificado. Na realidade é totalmente contraditório com a situação de escravo o exercício de qualquer poder no plano do real. Assim, pode ter ocorrido uma transformação: se não existiam condições de exercício do poder real, exercia-se no plano do imaginário, através da religião.

# O Candomblé e o poder feminino, Teresinha Bernardo [link]

Outubro 23 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

√ O conceito de Deus entre os Yorùbá

Entre os Yorùbá não parece existir uma definição clara, inequívoca e uniforme de um Deus-supremo, daquilo que podemos definir como o Deus judaico-cristão e muçulmano. Mesmo os termos Oluwa, Olodumare, Olorun, Edumare, etc., parecem definir muito mais um conceito importado e inculcado à força das missões cristãs e das invasões muçulmanas. Essa ideia de imposição de uma ideia que depois se tornou intrínseca, está bastante clara na dificuldade que os Yorùbá têm de explicar o que é ou quem é Olodumare, sem recorrerem a todo um manual de explicações de tipologia muçulmana ou judaico-cristã. Ele é eterno, anterior, aquele que estabeleceu o Universo e a Terra. Olhando esta definição é impossível não lhe reconhecer tiques das citadas confissões religiosas. Além do mais, não existe um culto específico para a Olorun/Olodumare/Oluwa. Assim sendo, continua a ter mais cabimento a ideia de que no topo da hierarquia continua Obatalá/Oxalá e que os mitos relatando o envio dos Orixás à terra por Olodumare são narrativas construídas já sob clara influência externa. Mitos tão ilusórios quanto as concepções demoníacas de Exú, concepções que perduram na mitologia da Umbanda.

Agosto 31 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Fissura religiosa no Candomblé – carta de um Ogã

É inegavelmente – e fundamental que seja afirmado – que o Candomblé atravessa hoje o período de maior fissura da história. A tal ponto que podemos e devemos afirmar que mais do que nunca hoje o Candomblé se tornou instrumento de negócio e legimitação de uma vaidade ignorante. Essa fissura não tem uma datação ou uma cronologia definida, não se pode (mas poder-se-á qualquer dia) falar num Cisma Religioso. Essa fissura é notória na própria prática da religião, na ritualística e claro na ética dos que se afirmam sacerdotes.

É inegável que tanto no Brasil quanto em Portugal (e este último interessa-nos particularmente) o Candomblé está minado por pais e mães-de-santo que nunca viram um roncó ou camarinha, que colocam CDs a tocar ao invés de terem ogãs, que se fizeram sacerdotes por si mesmos, que maquilham as iniciadas (iyawôs), que trocam o Orisa (Orixá) dos consulentes, que distribuem cargos e atribuem competências a namorados e filhos de carteira recheada, minado de pessoas que não respeitam as regras rituais e que querem à força e num curto período de tempo assumirem o cargo sacerdotal. Neste Candomblé tudo é comprado, os adornos tradicionais foram substituídos por novas tendências pirosas e folclóricas, há qualidades novas de Orixá (Exú Camarão é um bom exemplo) como se a tradição fosse inventada ao estilo Barbie. Há incorporações fingidas, pais-de-santo que roubam jóias e ouro e mudam de cidade batendo com a mão no peito, há enfim uma panóplia de vigarices que criam uma fissura desta modernidade vagabunda e abandalhada face ao tradicional decente e respeitoso.

Cartomantes, massagistas, todas substituíram o termo “espírita” ou “médium” por Mãe-de-Santo. É moda, o português é otário e gosta de ser enganado – ninguém quer ouvir que não nasceu para ser sacerdote ou sacerdotisa, querem sim ouvir que têm capacidades e assim se sentirem especiais. Há ainda aqueles que eram Ogãs no Brasil e chegam a Portugal dizendo que são Pais-de-santo, governando a vida sem trabalhar muito.

Este Candomblé está muito longe de ser respeitoso. A recuperação e preservação do tradicional importa pouco. É feito de banalidades, fingimentos, mentiras, palhaçada pseudo-ritual. Quem consegue colocar um travão a isto?

Alagbê t’ Oxum

Agosto 28 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | 2 Comments »

√ Caboclo não é Umbanda.

É hábito comum associar-se culto de Caboclo a Umbanda. Apesar da Umbanda ser uma religião na qual o culto aos Caboclos tem particular expressão, a verdade é que os ancestrais da terra brasileira já eram cultuados no Brasil muito antes da fundação e formação da Umbanda. O culto dos Caboclos foi introduzido pelo povo bantu, os angolanos e congoleses que aportaram ao Brasil através do comércio de escravos. Esses africanos possuiam o culto dos seus antepassados, num processo ritual que trazia de novo à terra os anciães falecidos, a fim de procederem ao tribunal dos costumes e dos conflitos. Esses antepassados – não divinizados – são o que se convencionou chamar de Pretos-Velhos.

Com o contato entre os africanos e os índios brasileiros sobreveio o culto dos Caboclos, seguindo a lógica de culto aos antepassados, num acrescento ritual de grande importância, uma vez que os negros reconheciam valor espiritual, cultural e moral aos nativos brasileiros, uma vez que havia uma espécie de partilha de estruturas religiosas.

Com a formação da Umbanda, uma religião fundada num processo tremendamente criativo, as estruturas religiosas africanas de origem bantu foram incorporadas, bem com elementos do culto jeje-nagô, do catolicismo popular português e do espiritismo francês. A Umbanda é assim uma invenção religiosa moderna brasileira que pegou nos Caboclos e Pretos-Velhos do culto bantu, introduziu o culto a Marinheiros e outros espíritos “encantados”, assimilou as lógicas de pensamento de bem e mal, deus e diabo, paz universal, castigo, e inferno do catolicismo, incorporou da tradição ameríndia a cura pelas plantas e fumos, e branqueou por caminhos católicos os Orixás dos yorùbás.

Portanto, afirmar que Candomblé é Orixá, Umbanda é Caboclo, é profundamente  errado. Primeiro porque o Candomblé de Caboclo é muito anterior à formação da Umbanda e segundo porque a Umbanda também cultua os Orixás, mesmo que o faça de um modo desorganizado e catolizado.

Agosto 11 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

√ Redescobrindo o Xambá

O rito Xambá é dos ritos afro-brasileiros menos conhecidos, embora seja categorizado dentro do Candomblé como “nação”. Tchambá, Chambá, ou simplesmente Xambá, seria um grupo étnico africano, habitante dos montes Adamawa, próximos ao rio Benué, que os negros da região, no Togo, consagram a Oyá-Yasan, uma divindade do panteão Yorùbá, um povo cuja influência se estende da Nigéria ao Togo, Benim e Gana. Apesar disso, os Xambás são um povo mais próximo dos habitantes da bacia do Benim, os povos Hauçás (muçulmanos), Tapás (cultuadores originais de Omolu, conhecido por Sapadá ou Xapanã) e Baribás.

O povo Xambá faz parte das pequenas variações étnicas transportadas nos navios negreiros, tal como os Grunci, e a sua presença fez-se e faz-se sentir quase exclusivamente no Pernambuco, em particular no Ilê Axé Oyá Meguê, embora tenha surgido em Maceió, Alagoas.

A questão que ainda se coloca, e que historiadora V. A. Costa alimenta, é a correta manifestação cultural-religiosa do povo Xambá. Seria de fato um povo à parte que partilhava apenas nuances estruturais com os fons do Dahomé e com os Yorùbá, ou seria a Nação Xambá um pedaço da identidade específica Fon, como os Mahi, Savalu e Modubi, no Brasil.

A verdade é que o Xambá apresenta um colorido ritual muito específico, diferente do Camdomblé Ketu e Jeje. Para além das divindades apresentarem pequenas variações etno-cosmológica. Trajes, ritos, toques de ilús, os próprios ilús, etc., diferem bastante da tradição generalista do Candomblé. Em Portugal houve, durante a década de 1990,  um Terreiro de Xambá, todavia possuia fortes influências da Umbanda, perdendo em muito a originalidade ritual, oriundo de um terreiro paulista.

Agosto 10 2009 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »

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