
Depois de desempenhar o papel de escrava doméstica e sexual durante o período da escravatura, a mulher negra, afro-brasileira, liberta, desempenha os meus papéis, ausentes de uma série de possibilidade de igualização face à mulher branca, e a braços com os obstáculos impostos por uma sociedade segregadora e racista.
O estereótipo de mulher sensual e sexualmente promíscua e livre de preconceitos, estereotipia herdada da escravatura, permanece vivo e revitalizado. A teledramaturgia brasileira – espaço de difícil acesso aos atores negros – reproduz essa imagem repetidamente. Atrizes com Thais Araújo ou Débora Nascimento preservam e reconstroem a imagem da mulata atrevida, sensual, despreconceituosa, de classe baixa e empregada doméstica, que preencheu o imaginário da corte e da Casa Grande e que preenchem hoje o imaginário das classes médias e médias-altas brasileiras. Esta imagem socialmente assumida e assimilada funciona como condicionante da mulher afro-brasileira, forçada a perpetuar o estereótipo.
Maio 23 2009 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »

Para além da imagem tradicional de “mãe-preta”, a mulher negra sempre esteve associada à imagem de “sensualidade e sexualidade desenfreada”, fruto das fantasias dos senhores de engenho e demais proprietários de escravas, ao mesmo tempo que era propriedade privada e assim sendo – tratando-se de um objeto – estava livre das rígidas normais morais católicas. O trânsito sexual gerado pelas relações de dominação entre senhores e escravas, aliado à sensualidade de muitas destas escravas, originou um circuito de troca de vantagens, amenizando e equilibrando razoavelmente as relações de dominação, dando origem à miscigenação. Ademais, a escrava substituiu a esposa branca na cama, esta última muito presa às concepções sociais, religiosas e culturais, de esposa e mãe. A negra passa a suprimir as fantasias do senhor, ganhando poder fora do círculo familiar mas junto da fonte de dominação, conquistando contudo a inveja e o ódio das esposas.
Maio 22 2009 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »

A escravatura tirou aos negros a sua condição básica de ser humano, tornando-os objetos de um sistema maior, o sistema económico colonial. Todavia, a mulher negra desempenhou uma multiplicidade de papéis durante todo o período da escravatura, muitos deles contraditórios. A própria reprodução das mulheres negras era tida como antieconómica, uma atitude passível de punição. A gravidez não era lucrativa, reduzindo a capacidade de trabalho das negras. O desinteresse dos senhores face às condições de gravidez e parto das negras escravas, conduziu a um elevado número de abortos e infanticídio. No entanto, elas foram transformadas em amas-de-leite – as famosas mães pretas – sendo inclusivamente alugadas ou vendidas como tal a outras famílias. As crianças negras eram retiradas das mães, entregues a instituições de caridade ou lançadas à morte e à sobrevivência nas ruas. Esta transformação de escrava de lavor em escrava doméstica com funções de ama-de-leite e mãe-preta, negaram-lhe a própria maternidade, passando a constar como peça importante no agregado familiar branco.
Maio 21 2009 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »

Conhecer a realidade sócio-económica da mulher afro-brasileira é um trajeto essencial na compreensão de uma série de estigmas, preconceitos e dificuldades inerentes à sua própria condição de escravo-descendente, de negra ou parda, de habitante da favela. A mulher afro-brasileira ocupa o segmento mais baixo da sociedade brasileira e perpetua a exclusão baseada na cor da pele e na origem étnico-cultural. Apesar da realidade desta segregação, o mito da Democracia Racial tem sobrevivido nos discursos oficiais, vendido ao mundo pelas classes dirigentes, num ilusório processo natural de miscigenação pacífica e harmoniosa.
A MULHER AFRO-BRASILEIRA será o próximo tema a ser tratado na página da APCAB. Uma viagem pelos dilemas históricos, económicos e sociais das mulheres afro-brasileiras, símbolos de luta e resistência, e ao mesmo tempo base da pirâmide social.
Maio 20 2009 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »