Candomblé | Nota Introdutória

O termo Candomblé é sem sombra de dúvida de origem angolano-congolesa Kikongo, traduzida pela separação Ka e ndomblé, significando assim “o costume do povo negro”. Antes de mais, o Candomblé, é uma religião e não uma seita como se quer fazer crer. As suas práticas remotam à África Yórubà (Níger e Nigéria), Fon (Benin) e Bantu (Congo e Angola). A essência da religião é um panteísmo personificado (deuses da natureza) em heróis históricos que se demarcaram dos demais pela sua capacidade na execução de alguma tarefa, como Ògún, o senhor da guerra, conquistador inigualável. Estes heróis recebem o nome de Òrìsàs (Orixás) no território Yórubà, Voduns no território Fon e Mukixes-Inkices em território Bantu. O culto em África era indivualizado, isto é, cada divindade era guardiã de uma cidade ou território como Ògún em Ìré, Òsùn em Ìjèsà, etc. Com a leva de escravos para o Brasil o culto sofreu alterações, formando-se um panteão de deuses nas noites de Senzala e Quilombo. Os deuses passaram a ser louvados num só sìré (louvor), agora que os negros, das diversas nações onde cada divindade era cultuada, estavam agrupados. O objectivo do branco escravagista, ao colocar negros de diversas origens juntos, era evitar as revoltas, mas a verdade é que tal elevou o culto à forma como o conhecemos hoje. Ao longo dos tempos foram sendo construídos templos (ìylé àsè) como o Ìylé Àsè Àirà Ìntilè, na Bahia, nos primeiros anos da ocupação portuguesa do território.

Com o passar do tempo a organização do culto tomou os seus moldes mais ou menos definitivos preservando-se em Casas de Culto constituídas para o efeitos e que hoje são património do governo federal do Brasil e tidas como as casas onde ainda se pratica a religião no seu estado mais puro. São elas a Casa Branca do Engenho Velho (Salvador da Bahía), Kwe Cejá Undé (Cachoeira de São Félix, Bahia), Bate-Folha (Salvador da Bahia), por exemplo. Estas casas fundadas ainda por escravos representam a herança africana de reis e rainhas escravizadas num Novo Mundo. O final do século XIX marcou uma viragem com a Abolição da Escravatura (1888) e com o começo das perseguições mais intensas das práticas religiosas negras na Bahia, a “guerra santa” empreendida pela polícia, com a violação dos locais sagrados e com a destruição de templos do Candomblé. A guerra foi longa. Em 1960 dá-se uma viragem no rumo dos acontecimentos com a democratização do culto, que passa a ser frequentado por brancos, poetas, pintores, pensadores, e as sacerdotisas (Ìyàlóòrìsàs) passaram a ser alvo de respeito e até de culto individualizado, cantando-se sobre elas, pintando-as, etc, recorrendo às suas memórias vivas e tradição oral para recuperar a história da Bahía, Maranhão, etc, onde os negros foram colocados. Com a popularidade do culto sobreveio um problema que nunca mais teve fim: os falsos sacerdotes ou sacerdotisas. Apaixonados pela beleza do culto muitos foram os que se dedicaram a improvisar templos em quintais e assumirem-se como sacerdotes. De quatro ou cinco casas de culto passam a existir quatro mil, maioria da qual sem quaisquer tradição ou credibilidade. Em 1976 a Liberdade Religiosa chega à Lei Brasileira mas não ao quotidiano, onde, ainda hoje, o Candomblé é perseguido e mal tratado, também por culpa de improvisadores do culto e da “guerra santa” empreendida pela IURD e Igrejas Evangélicas.

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Junho 26 2007 05:46 pm | Religiosidade Afro-Brasileira

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