√ Candomblé e Sociedade de Consumo
A noção de tempo que tem vigorado nos últimos três séculos nas comunidades brasileiras do Candomblé foi fermentada no caldeirão da tradição Yorùbá, onde o tempo e o devir são olhados num linear contínuo temporal. Essa noção de tempo quando mesclada com a iniciação ritual e seus processos entra em choque com a cultura moderna em que essas comunidades hoje se inserem. Numa sociedade de consumo em que o material supera o espiritual, em que o ter é um processo imediato, em que o possuir é mais valorizado do que o ser, as comunidades do Candomblé atravessam um processo de readaptação muitas vezes incorreto. Essa modernidade religiosa é marcada pelo imediatismo do saber e ter. Ninguém está disponível para ser filho-de-santo e para se limitar ao conhecimento de cada etapa. Toda a gente quer ser imediatamente pai ou mãe-de-santo num espaço de tempo mais curto possível. Mais. Ninguém aceita bem que o acesso ao sacerdócio não advém da vontade própria do sujeito. Não só no Brasil como em Portugal, o sacerdócio do Candomblé tornou-se uma questão de moda que fazem com que a proporção de sacerdotes para filhos é cada vez mais equiparável.
É inegável que em Portugal existem uma boa dezena de sacerdotes afro que nunca entraram num roncó, numa camarinha, que tão pouco conhecem os segredos do culto ou as especificidades das divindades, mas que frequentando um punhado de meses alguma casa de culto e comprando uma mão cheia de livros já se consideram sacerdotes afro. É o fruto do devir e do consumo.
{foto de Claudio Zeiger}
Julho 14 2009 04:22 pm | Religiosidade Afro-Brasileira





