
As correntes religiosas que concorreram para a fundação da Umbanda, processo que traduz a amalgama religiosa e cultural que compõe o tecido social brasileiro, permitem uma série de movimentações no seio da própria genética da religião. Com a transnacionalização do culto para o espaço europeu, nota-se, uma dinâmica de deslocação do corpus litúrgico e teológico umbandista do espetro afro-brasileiro por excelência, para um paradigma demarcadamente espírita de ideologia europeia. Isto significa que poder-se-á estar diante de uma dinâmica de alterações estruturais no interior do imaginário da Umbanda, deixando cair traços que conferiam identidade histórico-cultural a uma religião que se vai revelando permeável às alterações imprimidas pelas necessidades do mercado religioso.
Se de um modo geral, dentro do espaço brasileiro, as últimas décadas foram marcada por uma africanização crescente da Umbanda, empurrando esta para o interior da esfera do Candomblé, ao ponto de ser legítimo falar numa umbanda candomblecizada (permita-se a criação do termo), a realidade é que esta última década e a vindoura poderão estar a imprimir novo paradigma de leitura da prática umbandista, cada vez mais colada aos ritmos estéticos e dogmáticos do espiritismo de orientação kardecista. Essa alteração notória está impressa nas correntes de cura, no uso excessivo da imagem do medium, da interiorização profunda do conceito de mediunidade, e na não pouco polémica ideologia da caridade, em boa medida muito distante da realidade, mas que tem operado como boomerang no mercado religioso.
As razões deste deslocamento teológico assenta em duas realidades que, embora distintas, operam em conjunto para balancear os alicerces umbandistas. Primeiro, na transcionalização do culto este vê-se forçado a operar dentro do imaginário do espaço onde se aporta. Neste sentido, a Umbanda cola-se ao catolicismo português e à larga presença do espiritismo tanto no imaginário lusitano quanto no imaginário coletivo europeu. Incorporação de espíritos, cura pelo toque e mediunidade servem de instrumentos de entrada no campo religioso de chegada. Segundo, e de não menor importância, o crescimento das igrejas neopentecostais, marcadas por uma liturgia de carga dramática, por uma teologia da salvação, por uma escatologia que não apenas faz uma leitura apressada do Apocalipse como ainda acelera o final dos tempos e pela crença na cura pelo toque.
Todos estes fatores aliados à liderança de alguns templos umbandistas por pais-de-santo de nacionalidade brasileira, que se encontram marcados por essas dinâmicas da cura, salvacionismo e escatologia, operam para fazer da Umbanda cada vez mais uma religião umbiligada ao espiritismo, ao mesmo tempo que vai ganhando tiques de notória experiência neopentecostal. Para segundo plano vão ficando os caboclos, pretos-velhos e boiadeiros, cujo culto foi absorvido para a Umbanda a partir do Candomblé de Cabolo de matriz Congo-Angola, ao ponto de a Umbanda considerar tais cultos como dados do código genético umbandista.
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Tags: espiritismo, Umbanda
Julho 01 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »
Nos dias 24 e 25 de Junho terá lugar no Auditório 1 Torre B da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o Colóquio “A circulação de objectos, corpos e espíritos: processos de objectivação e subjectivação nos movimentos religiosos entre África e as Américas”, organizado pela Prof.ª Clara Saraiva e pelo Prof. Ramon Sarró. Todo o programa aqui.
Tags: Agenda Cultural
Junho 22 2010 | Agenda Cultural | No Comments »
(…) O vínculo estreito do povo-de-santo com a natureza, e o estreito vínculo destes com as divindades, fazem do candomblé uma religião imanente, longe das abstrações metafísicas das religiões transcendentais. (…) a religião comunitária do candomblé representa uma alternativa viável, representa uma volta simbólica à natureza, representa uma relação íntima e corporal com os “deuses” (orixás), representam uma vivência coletiva, em sociedade, uma potencialização da sexualidade humana e a valorização do feminino num mundo predominantemente masculino. Assim, esses elementos estruturantes do candomblé apontam respostas concretas para a crise dos modelos ocidentais.
# Eduardo David de Oliveira in “Cosmovisão Africana no Brasil”, p. 98
Tags: Candomblé, citação
Junho 11 2010 | Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »
Antes da invasão islâmica havia a escravização dos africanos abaixo do Saara, mas a escravização era diminuta. Com a invasão árabe este processo se intensifica e ganha uma justificativa ideológica: a conversão dos pagãos ao islamismo. (…) O “escravo” se integrava ao clã, família ou cidade-estado. (…) Ele é incorporado dentro deste sistema. Ele não é nadificado na valorização de sua existência. Ele não é transformado em mercadoria ou instrumentalizado para aumentar o acúmulo de capital. Há, inclusive, o caso de um “escravo” que chegou a Rei em uma das monarquias africanas.
# Eduardo David de Oliveira in “Cosmovisão Africana no Brasil”, p. 27
Tags: escravatura
Junho 04 2010 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »
Não foi por acaso que os três grandes Impérios Africanos surgiram entre o Saara e a Savana. Além dos interesses econômicos e religiosos, há explicações político-culturais. Ao sul da África temos outros tipos de organização social e política dada a tradição de povos como os yorubás, por exemplo, que se organizavam politicamente em torno de cidades-estado. Urbanizados, os yorubás detinham a arte da metalurgia e podiam proteger-se em unidades políticas menos e independentes. Já os povos da faixa Saara-Sahel, habituados ao nomadismo, construíram os grandes impérios somente quando foi necessário combater a progressão árabe.
# Eduardo David de Oliveira in “Cosmovisão Africana no Brasil”, p. 29
Tags: Yorubás
Junho 02 2010 | Identidade Afro-Brasileira | No Comments »

ÌGBÁ ÁBÍDÍ N#2
TÍTULO: Gelede e Irmandade da Boa Morte: sociedades de mulheres negras na região yorùbá e na bahia de todos os santos
AUTOR: João Ferreira Dias
RESUMO: É propósito deste artigo analisar duas organizações femininas de mulheres negras, uma na África Yorùbá, a Egbé Guélédé, e outra na Bahia de Todos os Santos, a Irmandade da Boa Morte, procurando compreender suas estruturas, lógicas de sociabilidade, valores religiosos e estéticos, ao mesmo tempo que se procura inserir duas organizações distintas no discurso da história religiosa africana na sua terra original e na diáspora.
Palavras-Chave: Guélédé, Yorùbá, Ancestralidade, Feminino, Diáspora, Religiosidade, Irmandade da Boa Morte, Estrutura, Organização, Valores Religiosos, Valores Estéticos.
RESUME: It is propose of this article study two black women organizations, one in the Yorubaland, the Egbe Gelede, and the other in Bahia de Todos os Santos, Salvador, the Irmandade da Boa Morte, trying to understand their structures, sociability’s processes, religious and esthetic values. At the same time it is propose insert two different organizations in the African religious history discourse, in the native land and Diaspora.
Key-words: Gelede, Yoruba, Eldership, Female, Diaspora, Religiosity, Irmandade da Boa Morte, Structure, Organization, Religious Values, Esthetic Values.
Excerto:
Não só simbolicamente mas também em termos práticos, a instituição da Sociedade Guélédé que preserva e prepara o espectáculo público inaugural da sua existência e simultaneamente assume uma feição religiosa ao cultuar a fertilidade, a maternidade e as grandes mães ancestrais, marca a passagem de uma sociedade matriarcal para uma sociedade patriarcal, notoriamente influenciada pelas vagas de islamização e pela forte presença colonial/comercial europeia e mais tarde norte-americana, de formação cultural cristã. Deste modo, a Egbé Guélédé tornou-se espaço de preservação da herança africana original, marcada pela detenção do poder simbólico por parte das mulheres, de que o culto ao feminino (Iyá-mi) se tornou chave de unificação interna identitária.
Tags: Ìgbà Ábídí
Maio 21 2010 | Ìgbà Ábídí | No Comments »

ÌGBÁ ÁBÍDÍ N#2
TITÚLO: Gèlèdé – o poder feminino na cultura africana-yorùbá
AUTOR: Olúségun Michael Akínrúlí
RESUMO: A África é sempre vista como uma sociedade extremamente machista onde para os mal-informados, a poligamia e as mulheres causam uma tensão desconfortável e as mesmas são sempre privadas dos seus direitos. Para clarear este fato, será explicado como as mulheres são percebidas na cultura Africana-Yoruba e também demonstrando tanto os seus poderes quanto os seus papéis naquela cultura.
Palavras-Chave: Mulheres, Gelede, Cultura Yoruba, Osun (Oxum)
RESUME: Africa is often seen as an extremely macho society where according to the Western onlookers, issues related to polygamy and women cause an uncomfortable tension and where women are often deprived of their rights. To shed some tangible light on this, I shall explain how women are perceived in the African-Yoruba culture and also explain feminine power and their role in that culture.
Key-words: Women, Gelede, Yoruba Culture, Osun.
eXCERTO:
Acredita-se que as mulheres podem usar estes poderes criativamente para ajudar aos seus maridos, filhos e a sociedade em geral. Quando elas estão enfurecidas, podem usar o poder de uma forma destrutiva para atingir até a comunidade inteira. Nesta ocorrência, as mulheres são chamadas de Àjé (Bruxas). Então o espetáculo de Gelede vem para tranqüilizar e mimá-las para não usarem estes poderes negativamente.
Tags: Ìgbà Ábídí
Maio 14 2010 | Ìgbà Ábídí | No Comments »

ÌGBÁ ÁBÍDÍ N#2
TÍTULO: Araketure Fara Imorá: A nação de ketu no candomblé da Bahia
AUTOR: Adinelson Farias de Souza Filho
Resumo: o texto discute a formação da nação de ketu do candomblé da Bahia como o referencial da ortodoxia desta religião de matriz africana, passando pela origem diversa dos escravos denominados nagô à eleição do reino de Ketu ao centro cultural dos candomblés baianos, onde vários elementos adensam esta historia e a estruturação deste grupo cultural.
Palavras-Chave: nação ketu; nagô; candomblé; identidade étnica
Abstract: the text argues the formation of the nation of ketu of candomblé of the Bahia as the referential of the orthodoxies of this religion of African matrix, passing for the diverse origin of the called slaves nagô to the election of the kingdom of Ketu to the cultural center of candomblés bahian, where some elements accumulate this history and the structure of this cultural group.
Word-key: nation ketu; nagô; candomblé; ethnic identity
Excerto:
(…) Celebrada no hino que dá nome ao ensaio, a nação de ketu atravessou o atlântico como referência ao etnônimo de apenas mais um grupo de escravos. Mas na Bahia carregou no seu seio a anacrônica ideologia nacionalista yorubá, que a partir de 1840, marcou a reorganização política e religiosa dos grupos de língua do mesmo nome no sudoeste do golfo do Benin – Porto Novo, Lagos, Ibadan – e em terras estrangeiras –, nagôs da Bahia, xambás de Pernambuco, lucumis de Cuba. Os ecos desse nacionalismo se cristalizaram na ortodoxia do candomblé nagô e nos critérios de pureza ritual adotados nestas terras, razão pela qual procuro aqui elencar possíveis motivos que elevaram uma das identificações dos escravizados, provenientes de diversas áreas da yorubalândia, à grande nação matriz dos ritos, costumes e procedimentos da religião crioula baiana chamada candomblé.
Tags: Ìgbà Ábídí
Maio 12 2010 | Ìgbà Ábídí | No Comments »
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