Antropologia | Os Nagôs da Bahia


Os Nagôs são na verdade os negros dos reinos Dahomé e Ardra, reinos vinculados ao Império Yorubá-Oyó, que foram levados para a Bahia no comércio escravo. Através deste processo de inclusão negra no território brasileiro como mão-de-obra escrava espalharam-se as culturas negras marcando para sempre a alma e identidade brasileiras. No entanto, é na Bahia que essa presença se sente mais, através das comunidades-terreiro que surgiram e vão surgindo neste Estado.

Os povos de Ketu, Egba, Egbado e Sabé, foram alguns dos que chegaram à Bahia provenientes do reino Yorubá. O reino Yorubá compreende o sul e centro da actual República do Benin (sendo que parte deste país é dos povos ewe-fon, mas cujas fronteiras são difíceis de definir), parte da República do Togo e todo o sudoeste da Nigéria. O povo de Ketu foi o que mais contribuiu para a implantação da cultura nagô no estado bahiano. Os araketu (isto é, cidadãos de ketu) procuraram reconstituir as suas instituições de estrutura social forte tentando adaptá-las ao novo meio com a maior fidelidade possível aos padrões básicos de origem. Mais que qualquer outra a cultura nagô-yorubá foi a que mais se sobe impor no seu novo contexto.

Hoje a palavra ketu representa, acima de tudo, a mais tradicional manifestação de religiosidade negra. No entanto, sabe-se que os Yorubás não se viam a si mesmos como um todo, muito por culpa da extensão do território e assim forte presença das identidades locais. Antes de se ter conhecimento do termo Yorubá, nos primeiros registos e mapas datados de entre 1656 e 1730, é o termo “Ulkumy” que designava a região yorubá. Depois de Snelgrave, em 1734, o termo “Ulkumy” é substituído por Ayo ou Eyo, no intento de designar Oyó, a capital do país dos Yorubás. Em 1726 o comandante do forte português de Ajudá, Francisco Pereira Mendes, relatou à Bahia, os ataques levados a cabo pelos Ayos contra os territórios de Adjá, O Revoltado, rei do Dahomé, por este ter atacado Allada em 1724, e que viria a conquistar Uidá em 1727. Esse porto de Uidá era chamado de Gléhué pelos dahomeanos ou fons, Igéléfé pelos yorubás e Ajudá pelos portugueses. Uidá era habitado pelos hwéda e tornou-se o principal porto de exportação dos escravos inimigos do Dahomé (ou Dahomey).

Ora, Fabunmi, em 1985, afirma que Òduduwà unificou os povos num só reino cuja capital seria Ìylé-Ìfé. Ora, esta afirmação deve-se, ao que creio, da confiança mantida até hoje de que seria esta cidade a cidade-um, isto é, a cidade da criação do mundo por Òlòdumáàré ou Òlóòrún e cidade espiritual do reino, hoje perdido. Segundo o mesmo, após a morte de Òduduwà, o reino foi dividido pelos seus filhos do seguinte modo: Lagos para Ògúnfunmìnìré (presumivelmente o Òrìsà Ògún), Àbeokutà para Omonidé (mãe dos filhos de Òduduwà), Ìjegbù-Ìbó para os caçadores de Ìylé-Ìfé, Òsògbó para Tìmehìn, o caçador, Egbado para o clã dos Idó, Ìjebú-Òdè para Ogboronga, Ìwó para Àdekola Telu (filho de uma governante –óòní), Ìbadan para Lugelu, um chefe guerreiro, Ìrágbìjì para Òdè Àgbà, Ìfon para Obàlufón Àyédiyèmoré (talvez Òsólufóòn), todo o Benin para um descendente de Òránmìyán (Sogbo ou Dàdá?), Ìré e Efon Àláàyé para os netos de Ògún. Portanto, tem-se hoje a consciência do predomínio exercido sobre os restantes escravos por parte dos yorubás de Ketu. As religiões dos demais passaram a ser organizadas de acordo com uma estrutura-padrão ketu, assimilando largamente modos e formas, preceitos e ritos. Quer isto dizer que, salvo elementos culturais bantus (angola-congo) enraizados pré-yorubás, a cultura afro-brasileira é muito uma cultura originária da tradição yorubá e de Ketu.

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Junho 27 2007 05:48 pm | Identidade Afro-Brasileira

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