√ Entrevistas: Iyá Sussu

 

 O sol batia sossegadamente sobre a planície ribatejana. O céu azul da cor das contas de Oxóssi. Os girassóis, amarelos, combinando com as frestas da casa avisavam que a casa é de Oxum. Iylê Axé Iyá Odô de Iyá Sussu.

P: O que são os Orixás?

 

R: Os Orixás são divindades que representam as forças da natureza. Cada elemento natural representa uma divindade do panteão afro-brasileiro. Por isso Oxum é a deusa dos rios, Yemanjá a deusa dos mares, Ossaîn o deus das plantas, etc.

P: O que é o Candomblé?

R: O Candomblé é uma religião de origem afro. Com os negros a religião foi-se formando, através das preces, dos momentos rituais, da organização do culto. O culto foi levado para o Brasil pelos escravos e nas senzalas se formou a religião do Candomblé, como o conhecemos, unindo negros de diferentes aldeias onde se cultuavam diferentes divindades, os Orixás. Ao longo dos anos o Candomblé foi-se espalhando, por sua beleza, conquistando a adesão dos brancos.

P: O que a trouxe ao Candomblé?

R: Eu procurava o meu caminho, as minhas raízes com a terra, com a natureza. Eu sentia a minha ligação ao sobrenatural. Eu dizia e acontecia. Passei por várias religiões, mas nenhuma foi capaz de me satisfazer. Em Portugal visitei dois terreiros, embora um não tivesse “mexido” comigo. Mas senti que aquilo estava muito próximo do que eu procurava. A partir daí decidi partir à procura das minhas raízes, do encontro do meu lugar. Eu andava a sonhar com uma mãe-de-santo negra e pequenina. Já lá vão muitos anos mas lembro bem. Procurei informação de terreiros na Bahia, pois eu sabia que era lá que os negros tinham deixado as suas tradições. Telefonei para diversos terreiros perguntando como era a mãe-de-santo da casa. Eu procurava uma pequenina, gordinha e negra. Ao fim de vários telefonemas, atendeu uma mãe-de-santo que correspondia à discrição. Era ela e estava me esperando fazia alguns anos.Iyá Nitinha de Oxum, da Casa Branca do Engenho Velho, o templo mais tradicional do Candomblé no Brasil. Ela me chamou e eu fui.

P: Qual foi a coisa mais importante que aprendeu com Iyá Nitinha?

R: Ela me ensinou muita coisa. A hierarquia, a distribuição dos cargos, a importância da estrutura. A viagem que fiz com ela à Argentina foi um marco importante. Nela aprendi a fazer iniciadas, um axexê, uma forma de estar dentro da religião. Acima de tudo aprendi com ela o quão importante é ser mãe-de-santo. A influência e a responsabilidade. Na minha iniciação Mãe Nitinha me disse: “chegou o dia da felicidade”, nunca mais vou esquecer essas palavras. Depois ela me disse que eu tinha nascido para ser Iyalorixá, como ela e as outras antigas. Não tinha nada a ver com a vontade de ser mãe-de-santo, era um destino, um fardo também. Ela me ensinou a humildade. Não a humildade dela, porque uma iyalorixá não é, nem pode ser humilde, mas a humildade dos filhos. A forçosa dela marca-me muito. Não consegui aprender a sua calma.

P: Que recordações mais marcantes guarda do Candomblé por onde passou?

R: A festa de Oxalá no Rio de Janeiro, na casa do Pai Jô. A festa de confirmação como pai-de-santo de um irmão de santo, filho de Logunedé, também no Rio de Janeiro. Sempre acompanhada pela minha mãe. A viagem à Argentina claro, com as nove iyawô, o axexê de Mãe Gladys, e a confirmação dos novos cargos. Jamais esquecerei o dia em que acordei sem cabelo, na minha iniciação. É inesquecível o som dos clarinetes na Casa Branca dando início às festividades. Acordar assim para ir para o Axé é único.

P: O Candomblé começa a ganhar expressão em Portugal. O que tem a dizer sobre isso?

R: Felizmente por um lado que isso está acontecer. É sinal de que as pessoas estão a dispertar para as energias da natureza, para aquilo que o Candomblé tem para oferecer. Por outro lado, e infelizmente, muita gente está se aproveitando do nome do Candomblé para ganhar dinheiro fácil, para explorar as pessoas sem saberem nada ou quase nada dos segredos da religião. O Candomblé está na moda. Toda a gente quer ser pai ou mãe-de-santo como quem quer ser do jet7. Basta-lhes uma obrigação (quando a fazem) para se afirmarem como sacerdotes afro. Não passa por aí.

P:

O que procuram as pessoas no Candomblé?

R: Numa das vertentes, as pessoas que recorrem ao Candomblé pensam que não há impossíveis, que conseguimos resolver tudo, quando na verdade há coisas que os Orixás querem que aconteçam assim. Depois há muita a gente à procura de fazer mal aos outros — amarrações, feitiços, etc. Felizmente há também aqueles que procuram por curiosidade, por necessidade de desenvolvimento espiritual ou até por estudo, como os antropólogos.

P: O que significa para si ser Iyalorixá?

R: Primeiro uma responsabilidade muito grande. Independentemente disso requer saber compreender os outros, ajudá-los, ouvindo-os quando é necessário, reprender quando é forçoso fazê-lo (embora a maioria não goste de ouvir a verdade).

P: Quem a procura mais: portugueses ou brasileiros? Porquê?

R: Curiosamente são mais os portugueses, de ambos os sexos, não tem isso de “questão feminina”. Os homens hoje procuram ajuda espiritual e prática no Candomblé. Isto porque a maioria dos brasileiros são da Igreja Evangélica. Infelizmente, esquecendo as suas raízes afro-brasileiras.

P: O que tem a dizer sobre o «sincretismo». Chegou a altura de eliminar a influência católica no Candomblé, como fala Iyá Stella?

R: Acho que sim. Já deveria ter chegado há mais tempo. Eu própria sinto esse peso no Brasil. Não é fácil combater algo que está tão enraizado das pessoas. É um caminho lento.

P: Acha que algum dia o Candomblé terá uma presença na cultura portuguesa como tem na cultura brasileira?

R: Tenho a certeza que sim. Primeiro, o Papa João Paulo II deu um passo importante na diversidade religiosa, ao aceitar o Candomblé como religião. Depois as pessoas vão-se chegando por curiosidade. E a cultura nasce dos hábitos. O Candomblé chegou e vai ficando.

P: Que mensagem quer deixar aos leitores?

R: Não irem pelas conversas de “fuxico”, do “diz que disse”, muitas vezes na passam de invenção. Cuidado com o que ouvem e lêem, porque depois falam de coisas que não são. Sejam também críticos com o que vêm. Informem-se acima de tudo, e procurem a informação cuidada.

 

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Agosto 01 2008 07:26 pm | entrevistas

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