Archive for the 'Literatura Afro-Brasileira' Category
As expressões “literatura negra” e literatura “afro-brasileira” são empregadas para nomear alguns tipos de produções artístico-literárias que podem estar relacionadas tanto com a cor da pele de quem as produz, quanto com o fato de nelas serem trabalhadas, com maior intensidade, questões que dizem respeito à presença de tradições africanas disseminadas na cultura brasileira. As alterações que as tradições africanas sofreram no Brasil, estão presentes na capoeira, no candomblé, na macumba, no congado e em outros rituais preservados pelo povo. A literatura também assume essas tradições assumindo-as, particularmente, como estratégias de reinvenção e modulação de forças que se exibem em diferentes na cena do texto ou na linguagem que o produz.
# Maria Nazareth Soares Fonseca [link]
Outubro 16 2009 | Literatura Afro-Brasileira | No Comments »
distância face à costa, dos reinos Yorùbá e Fon-Dahomé, protegeu-os do comércio negreiro durante dos três primeiros ciclos [Ciclo da Guiné (segunda metade do século XVI), Ciclo de Angola e Congo (século XVII), Ciclo da Costa da Mina (três primeiros quartos do século XVIII)] tendo apenas entrado no circuito durante o último ciclo, Ciclo da baía do Benim, entre 1770 e 1850, durante o qual se verificou o tráfego clandestino.
Todavia, o impulso final dado ao comércio negreiro dentro de território iorubano foi dado pela guerra travada pelos dahomés contra os yorùbás que tinham o assédio dos europeus, necessitados de cada vez mais escravos para o mercado. Os ataques dahomeanos multiplicaram-se, enfraquecendo uma civilização marcada mais pelo seu apogeu cultural do que pela arte de guerrear.
Em território brasileiro, os escravos, eram agrupados sob dois grandes grupos, os bantu (composto pelos negros de Angola, Congo e Moçambique) da África lusófona, e os sudaneses (composto pelos yorùbás, os jejes e os haussás). Este segundo grupo foi o último a chegar ao Brasil, no Ciclo da baía do Benim. Apesar de Salvador não ser já a capital do Brasil, que havia mudado em 1763 para o Rio de Janeiro, continuava a receber grandes contingentes de escravos. Aquele povo africano que chegava, de aspecto negro como os outros, mudaria contudo a identidade do Recôncavo bahiano. «Nagôs», para os africanos francófonos, «yorùbás» para si mesmos, trataram de preservar as suas tradições culturais e religiosas, num processo de resistência único, impulsionado por membros das classes altas e dirigentes yorùbás, agora feitos escravos. Apesar do fluxo esclavagista houve também uma emigração iorubana para o Brasil, não nos moldes de comércio negreiro, mas nos moldes de fuga à guerra, particularmente a partir de 1830, altura em que os vizinhos do Dahomé começam a chegar às fronteiras de Òyó-Ilé, a capital de todo o reino Yorùbá, que viria a ser arrasada em 1835.
Ironia das ironias, os yorùbás viriam a encontrar os inimigos e vizinhos “jejes” do Dahomé na Bahia, para além dos malês e dos angolano-congoleses. Exceptuando os malês (do yorùbá ìmàlé, que significa “muçulmano”), os africanos que os yorùbás vieram a encontrar no Brasil não possuíam uma cultura resplandecente ou vigorosamente preservada, tendo assimilando rapidamente a cultura de chegada.
Janeiro 05 2009 | Literatura Afro-Brasileira | No Comments »
A vida no Morro do Capa Negro era difícil e dura. Aqueles homens todos trabalhavam muito, alguns no cais, carregando e descarregando navios, ou conduzindo malas de viajantes, outros em fábricas distantes e em ofícios pobres: sapateiro, alfaiate, barbeiro. Negras vendiam arroz-doce, mungunzá, sarapatel, acarajé, nas ruas tortuosas da cidade, negras lavavam roupas, negras eram cozinheiras em casas ricas dos bairros chiques. Muitos dos garotos trabalhavam também. Eram engraxates, levavam recados, vendiam jornais. (…) Os mais se estendiam pelas ladeiras do morro em brigas, correrias, brincadeiras. (…) Já sabiam do seu destino desde cedo: cresceriam e iriam para o cais onde ficavam curvados sob o peso dos sacos cheios de cacau, ou ganhariam a vida nas fábricas enormes. E não se revoltavam porque há muitos anos vinha sendo assim: os meninos das ruas bonitas e arborizadas iam ser médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, homens ricos. E eles iam ser criados destes homens (…) no morro onde morava tanto negro, tanto mulato, havia a tradição da escravidão ao senhor branco e rico. E essa era a única tradição. Porque a da liberdade nas florestas da África já haviam esquecido e raros a recordavam, e esses raros eram exterminados ou perseguidos.
# Trecho de «Jubiabá» de Jorge Amado
Dezembro 18 2007 | Literatura Afro-Brasileira | 1 Comment »
As editoras livreiras portuguesas estão a apostar em África,
colocando no mercado títulos de ficção e não-ficção de temática africana, disseram à Lusa profissionais do sector. Tony Tcheka, pseudónimo literário do poeta e jornalista guineense António Soares Lopes, interpreta a temática africana como reflexo de “políticas editoriais”. “Não há uma tradição de escritores portugueses a escrever sobre África. Tem havido, aqui e ali, mais edições que versam questões diferentes de África, mas não acho que tenham grande valor representativo na orientação do mercado. São mais as políticas editoriais”, disse. “O mercado não está devidamente abastecido de livros dentro dessa temática, mas ultimamente têm acontecido alguns casos de escritores português com alguma sensibilidade para questões africanas”, acrescentou.
Baptista Lopes, presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), reconhece que não há informação estatística que permita fazer a leitura da aposta na temática africana, mas deixa tudo em aberto. “Não temos – admitiu – uma informação estatística que permita chegar a essa conclusão, mas há duas ou três notas que parecem apontar para isso: o facto de nós portugueses termos sido potência colonizadora em África, a recente realização da II Cimeira UE/África – com a presença de líderes políticos africanos – e o facto de alguma edição estar relacionada com a guerra colonial”. “África exerce um fascínio nas pessoas que lá viveram. Com a descolonização vieram cerca de meio milhão de pessoas (para Portugal) e a isto a actividade editorial não é alheia”, observou. Anualmente são editados entre 14 mil e 15 mil títulos em Portugal, e, para Baptista Lopes, estes números devem ser interpretados numa dupla perspectiva. “Temos de olhar para o mercado numa dupla perspectiva: a do consumidor e a do produtor. Só se publica porque há quem produza, quem cria, e esse é um aspecto que deve ser considerado, depois temos um mercado exíguo, no que diz respeito ao consumo propriamente dito”, destacou.
# Retirado do jornal online «Notícias da Manhã».
Dezembro 17 2007 | Literatura Afro-Brasileira | No Comments »
“… quem diz homem, diz livre,
porque quando ele o não é,
não se assume em plenitude.
E a liberdade passa, necessariamente,
pelo direito à diferença,
pela capacidade de intervir,
momento a momento no destino coletivo”.
Eugênio dos Santos, 1995
Outubro 14 2007 | Literatura Afro-Brasileira | No Comments »

Um babalaô me contou:
“Antigamente, os orixás eram homens.
Homens que se tornaram orixás por causa de seus poderes.
Homens que se tornaram orixás por causa de sua sabedoria.
Eles eram respeitados por causa de sua força,
Eles eram venerados por causa de suas virtudes.
Nós adoramos sua memória e os altos feitos que realizaram.
Foi assim que estes homens tornaram-se orixás.
Os homens eram numerosos sobre a Terra.
Antigamente, como hoje,
Muitos deles não eram valentes nem sábios.
A memória destes não se perpetuou
Eles foram completamente esquecidos;
Não se tornaram orixás.
Em cada vila, um culto se estabeleceu
Sobre a lembrança de um ancestral de prestígio
E lendas foram transmitidas de geração em geração para
render-lhes homenagem”.
Pierre Fatumbi Verger
Julho 19 2007 | Literatura Afro-Brasileira and Religiosidade Afro-Brasileira | No Comments »