Archive for the 'Antropologia' Category

√ Fundação de Òyó

Segundo Stride e Ifeka (1971), Oranmiyan, na altura segundo príncipe de Ifé, terá feito um acordo com o seu irmão a fim de que lançassem um ataque aos vizinhos do norte por insultos a Oduduwa, seu pai e Oniiife. Mesmo a mesma narrativa, os dois irmãos terão encetado uma briga entre eles durante a expedição, da qual resultou a divisão do exército entre os dois comandantes. Como o exército de Oranmiyan não possuía um número capaz de enfrentar o desafio do combate, eles vagaram toda a costa sul até à chegada de Bussa. Foi na costa sul que Oranmiyan se encontrou com um chefe local que lhe ofereceu uma cobra com um encanto/feitiço preso ao pescoço. Segundo indicações do chefe local, Oranmiyan deveria seguir a cobra até que ela parasse e permanecesse num lugar por sete dias ao cabo dos quais ela desapareceria no solo. Oranmiyan seguiu o conselho do chefe e fundou Oyó, entregando a governação de Ilê-Ifé a Adimu, que se tornou o rei de uma nova dinastia de gbogbo Oníìfè, isto é, de todos os reis de Ifé.

Novembro 04 2009 | Antropologia | No Comments »

√ Eurocentrismo e racismo biológico: religião e religiosidade

…um grande terreiro muito limpo, no meio do qual estavam quatro tangedores festejando um ídolo que tinham no chão, posto sobre um fino pano de seda, com uns chocalhos e uma campainha; estariam então no terreiro coisa de mil gentios, todos estirados e untados no rosto e no corpo com várias castas de erva, que pareciam diabos, pedindo água ao ídolo.

# relação jesuíta, 1588, reino do Congo

… havia anos (…) sem nunca chover uma gota de água nas terras deste soba, sendo que chovia na dos seus vizinhos; mas que em vindo a cruz, logo chovera.

# Teixeira de Mendonça, 1645, região de Kikombo, reino do Soba Kionzo

Estes dois trechos mostram bem como o racismo biológico era aplicado à religiosidade. Enquanto os tradicionalistas, com ar demoníaco, pediam em vão ao ídolo que chovesse, na região de Kikombo bastou chegar um jesuíta com um crucifixo para que logo viesse a chuva. Esta desestruturação e desconstrução da religiosidade africana ao nível do demoníaco e o caráter salvador do cristianismo, tudo nestes trechos expresso, revelam o pensamento da época, em que os missionários cristãos salvam das garras do demónio os erráticos africanos.

Novembro 02 2009 | Antropologia | No Comments »

√ Eurocentrismo e racismo biológico

Os naturais trabalham pouco nas terras (…) por serem propensos à preguiça (…) cultivando-se pouco terreno, frequentemente ficam os naturais aflitos por horríveis carestias. (…) Pode parecer incrível que, com todo o vigor que Nosso Senhor os priveligiou, juntem tanta preguiça e inaptidão nas ocupações diárias e domésticas (…). Os europeus quando não podem andar a pé e se servem das costas destes pretos que levam os brancos nas tipóias ou de outras maneiras, gastam frequentemente cinco ou seis dias num percurso que em qualquer outra parte levaria dois. Nisto não há outra razão senão a preguiça deles. (…) Muita esperança há em que, com o tempo e a ajuda de Deus e pelos nossos cuidados, os naturais (…) se tornem mais acessíveis e mais dispostos a moderar as suas paixões e a enveredar pela senda da razão, aceitando a regra civil e os costumes da religião cristã.

# Cavazzi, Istorica Descrizione, Angola século XVII

Novembro 02 2009 | Antropologia | No Comments »

√ Transas e transes: sexo e género nos cultos afro-brasileiros, um sobrevôo

(…) Valorizando o ponto de vista dos médiuns e filhos-de-santo, contra as concepções do pesquisador, é possível melhorarmos significativamente a compreensão que temos sobre as relações de gênero e o espaço concedido à sexualidade nesses cultos. Isso porque poderemos olhar com menos constrangimentos teóricos e, quiçá, teológicos as delicadas relações que se tecem quando a prática da possessão entrelaça humanos, deuses e espíritos em tramas que envolvem desejos sexuais, elos afetivos e papéis de gênero comos diferenciais de poder que atravessam todas essas inter-relações.

# Patricia Birman, [link]

Outubro 15 2009 | Antropologia and Religiosidade Afro-Brasileira | 1 Comment »

√ O culto Vodu

A palavra “Vodu” suscita sempre uma interpretação negativa e “demoniaca” em quem a ouve. Fruto de um sem fim de erros históricos e teológicos em torno mais das suas práticas modernistas do que da sua raíz histórica. Na República do Benin, por exemplo, todos os anos é celebrado o Festival Vodu numa clara consciência étnica do governo nacional. Ainda ontem, no canal televisivo AXN, transmitiu um episódio da série “Castle” centrado no culto Vodu e tinha como personagens centrais um grupo de nigerianos. Na verdade o culto Vodu não vem da Nigéria embora tenha uma tradição análoga, a tradição Yorùbá dos Òrìsà. O culto Vodu é de origem dahomeana – Benin – e traduz-se pelo culto das divindades locais como Mawu, Lissa, Gu, Bessen, Iroko, etc.

O culto Vodu de hoje é completamente diferente e pouco tem a ver com as suas origens e com o culto Vodu dahomeano. O atual Vodu (que deixa de significar antepassado ancestral divinizado para passar a designar uma prática ocultista) tem origem no comércio de escravos para as ilhas do Haiti e Dominicana, onde assimilou as cosmovisões e teovisões católicas como a dualidade entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno. Além disso, a tradição Vodu assimilou ainda costumes e práticas angolano-congolesas, deixando Vodu de ser sinónimo de divindade para designar um prática ritual/religiosa no qual as entidades recebem o nome de Loas (termo congolês) e que têm por fim último a incorporação dos mesmos nos fiéis ou cavalos-dos-espíritos, um conceito usado também pelos umbandistas, a fim de fortalecer os mesmos e lhes transmitir sabedoria. Cada Loa deve ser reverenciado em seu dia próprio e “alimentado” com uma oferenda de galinhas ou cabras sacrificadas, frutas e outros alimentos. Sem a posse dos corpos físicos e as oferendas dos animais sacrificados, que são tradicionalmente deixados em encruzilhadas à meia-noite, os loas perderiam seus poderes sobrenaturais e desapareceriam para sempre.

Há duas categorias principais de deidades no Vodu: os loas Rada e os loas Petro. Há também classes menores de Loas, que incluem o Congo, o Ubo, o Nagô e o Wangol.  Os Rada são loas protetores, principalmente os de origem beninense e nigeriana, sendo invocados principalmente nos rituais de magia branca. (O nome Rada deriva de uma aldeia em Benin chamada Arada.) Os Petro são Loas agressivos que foram trazidos para o Haiti, em 1768, por um houngan (sacerdote do Vodu) espanhol chamado Dom Pedro, que era bem conhecido por ter introduzido a prática de beber rum misturado com pólvora bem moída. O houngan espanhol também introduziu uma variedade de novos ritos de Vodu entre os escravos haitianos, incluindo uma arrebatada dança dos espíritos, mais violenta que as antigas danças Rada executadas pelos sacerdotes e sacerdotisas da ilha. Portanto, o culto Petro de magia negra e seus loas são denominados, segundo Dom Pedro, o “mensageiro divino” responsável por sua adoração. A adoração do Loa é dirigida pelos houngans e mambus, os respectivos sacerdotes e sacerdotisas do Vodu. Usando a magia branca, eles curam pessoas doentes ou machucadas; usando magia negra, eles conseguem fazer um morto retornar à vida como zumbis para trazer problema ou até mesmo a morte a um inimigo.

A previsão é outra função importante dos houngans e mambus, e é como videntes que costumam se empregar. A vidência geralmente acontece enquanto sob a posse de um loa, mas outros métodos são usados, como o da leitura do cristal.

Na cerimónia haitiana de invocação do Loa, veves (intrincados emblemas simbólicos de vários loas a serem invocados) são desenhados com farinha ou cinzas, no chão da clareira onde dois santuários peristilo (um para os loas Rada e um para os loas Petro) foram erguidos. No centro do peristilo fica o poteaumitan, o mastro central dedicado ao loa Legba através do qual surgem os loas. As velas coloridas apropriadas para cada loa são fixadas sobre os veves, e orações especiais, que incluem a Ave-Maria e o Pai-Nosso, são rezadas.

Ao final das orações, os tambores do Vodu começam a tocar, e uma galinha, cabra ou outro animal é sacrificado e entregue ao cozinheiro, que o prepara para o altar do loa. Canções especiais são entoadas para os loas, enquanto os tambores seguem um ritmo apropriado, e a invocação se inicia.

Os tambores estão entre os símbolos centrais do Vodu haitiano. São considerados sagrados, por serem importantes no ritual de invocação do loa.

O tocar dos tambores tem muitas funções no ritual de Vodu. Pela combinação de ritmos tocados pelas baquetas, tambores médio e mestre e um par de pratos de metal chamado ogan, os dançarinos conseguem entrar em transe. Geralmente esse estado é atingido pela manipulação de ritmo e métrica, incluindo poderosas interrupções rítmicas chamadas casses, executadas pelo mestre dos tambores. A música de percussão também é essencial para manter o cenário do ritual depois que os dançarinos foram possuídos pelos loas. É da maior importância que os músicos mantenham os Loas dançando e usem ritmos especiais para expulsar qualquer espírito indesejado. Numa cerimónia Vodu, os devotos possuídos pelos loas podem aconselhar os problemáticos e executar milagres, como curar os doentes e adivinhar acontecimentos.

Em suma, importa ficar com a ideia de que o Vodu é portanto um culto de origem africano que assimilou um sem-fim de preconceito e elementos do imaginário católico e angolano-congolês afastando-se da sua raíz fundadora que no Brasil é preservado no Candomblé Jeje.

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Junho 23 2009 | Antropologia | No Comments »

√ Valor simbólico da palavra

Com o correr dos tempos o uso do Yorùbá-Nàgó foi sendo perdido como língua corrente nas sociedades da diáspora, à medida que as sucessivas gerações se iam adaptando e nacionalizando nos vários territórios. No Brasil, os afro-descendentes foram-se tornando afro-brasileiros, membros de uma camada popular mais ou menos renegada, consoante a região, mas sempre brasileira. A expansão dos cultos de origem Yorùbá – rompendo com as regras tradicionais de aprendizado e capacitação sacerdotal – fizeram prevalecer a língua materna nos contextos rituais, uma vez perdida no seu uso quotidiano. O Yorùbá permaneceu nos vocábulos e nas frases e cântigos rituais. O sentido original destes ficou perdido, registando-se hoje o conhecimento de uma série de fórmulas em língua Yorùbá que devem ser usadas em determinados contextos. Ou seja, elas têm uma função ritual que sobrevive independente do conhecimento dos seus significados. Não há tradução cultural, mas antes repetição sonora de palavras.

Abril 23 2009 | Antropologia | 9 Comments »

√ O sagrado dinâmico

A essência teológica e cultural Yorùbá assenta no poder do visual e da oralidade. A tradição oral, dinâmica e impregnada de sentidos duplos, está ao serviço dos contextos, conferindo sentido e significado a cada especificidade do real. As invocações, as cantigas, os versos sagrados, os mitos, as lendas, as fábulas, compõe a identidade Yorùbá e fazem parte do seu património imaterial. A música (toques de atabaques), as danças litúrgicas, os cânticos e saudações sagrados, os objectos sacros como os igbá ou paramentos (idè, adé, àkóró, èrúkéré, etc), fazem parte do plano sagrado e ritual amplamente carregado de valores estéticos. Apesar do valor do estético é na verdade o imaterial que faz uso do físico, do palpável que é esse estético. O belo e o material fazem parte de um sistema complexo que age rumo ao divino e ao colectivo.

Abril 23 2009 | Antropologia | 2 Comments »

√ Relato da Escravatura

“Arrancado a um estado de inocência e liberdade de forma tão cruel e bárbara, e assim remetido para um estado de horror e escravatura: eis uma situação de abandono que é mais fácil imaginar do que descrever”.

Ottobah Cugoano, escravo sobrevivente, 1787

Abril 10 2009 | Antropologia | No Comments »

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