√ O culto Vodu

A palavra “Vodu” suscita sempre uma interpretação negativa e “demoniaca” em quem a ouve. Fruto de um sem fim de erros históricos e teológicos em torno mais das suas práticas modernistas do que da sua raíz histórica. Na República do Benin, por exemplo, todos os anos é celebrado o Festival Vodu numa clara consciência étnica do governo nacional. Ainda ontem, no canal televisivo AXN, transmitiu um episódio da série “Castle” centrado no culto Vodu e tinha como personagens centrais um grupo de nigerianos. Na verdade o culto Vodu não vem da Nigéria embora tenha uma tradição análoga, a tradição Yorùbá dos Òrìsà. O culto Vodu é de origem dahomeana – Benin – e traduz-se pelo culto das divindades locais como Mawu, Lissa, Gu, Bessen, Iroko, etc.

O culto Vodu de hoje é completamente diferente e pouco tem a ver com as suas origens e com o culto Vodu dahomeano. O atual Vodu (que deixa de significar antepassado ancestral divinizado para passar a designar uma prática ocultista) tem origem no comércio de escravos para as ilhas do Haiti e Dominicana, onde assimilou as cosmovisões e teovisões católicas como a dualidade entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno. Além disso, a tradição Vodu assimilou ainda costumes e práticas angolano-congolesas, deixando Vodu de ser sinónimo de divindade para designar um prática ritual/religiosa no qual as entidades recebem o nome de Loas (termo congolês) e que têm por fim último a incorporação dos mesmos nos fiéis ou cavalos-dos-espíritos, um conceito usado também pelos umbandistas, a fim de fortalecer os mesmos e lhes transmitir sabedoria. Cada Loa deve ser reverenciado em seu dia próprio e “alimentado” com uma oferenda de galinhas ou cabras sacrificadas, frutas e outros alimentos. Sem a posse dos corpos físicos e as oferendas dos animais sacrificados, que são tradicionalmente deixados em encruzilhadas à meia-noite, os loas perderiam seus poderes sobrenaturais e desapareceriam para sempre.

Há duas categorias principais de deidades no Vodu: os loas Rada e os loas Petro. Há também classes menores de Loas, que incluem o Congo, o Ubo, o Nagô e o Wangol.  Os Rada são loas protetores, principalmente os de origem beninense e nigeriana, sendo invocados principalmente nos rituais de magia branca. (O nome Rada deriva de uma aldeia em Benin chamada Arada.) Os Petro são Loas agressivos que foram trazidos para o Haiti, em 1768, por um houngan (sacerdote do Vodu) espanhol chamado Dom Pedro, que era bem conhecido por ter introduzido a prática de beber rum misturado com pólvora bem moída. O houngan espanhol também introduziu uma variedade de novos ritos de Vodu entre os escravos haitianos, incluindo uma arrebatada dança dos espíritos, mais violenta que as antigas danças Rada executadas pelos sacerdotes e sacerdotisas da ilha. Portanto, o culto Petro de magia negra e seus loas são denominados, segundo Dom Pedro, o “mensageiro divino” responsável por sua adoração. A adoração do Loa é dirigida pelos houngans e mambus, os respectivos sacerdotes e sacerdotisas do Vodu. Usando a magia branca, eles curam pessoas doentes ou machucadas; usando magia negra, eles conseguem fazer um morto retornar à vida como zumbis para trazer problema ou até mesmo a morte a um inimigo.

A previsão é outra função importante dos houngans e mambus, e é como videntes que costumam se empregar. A vidência geralmente acontece enquanto sob a posse de um loa, mas outros métodos são usados, como o da leitura do cristal.

Na cerimónia haitiana de invocação do Loa, veves (intrincados emblemas simbólicos de vários loas a serem invocados) são desenhados com farinha ou cinzas, no chão da clareira onde dois santuários peristilo (um para os loas Rada e um para os loas Petro) foram erguidos. No centro do peristilo fica o poteaumitan, o mastro central dedicado ao loa Legba através do qual surgem os loas. As velas coloridas apropriadas para cada loa são fixadas sobre os veves, e orações especiais, que incluem a Ave-Maria e o Pai-Nosso, são rezadas.

Ao final das orações, os tambores do Vodu começam a tocar, e uma galinha, cabra ou outro animal é sacrificado e entregue ao cozinheiro, que o prepara para o altar do loa. Canções especiais são entoadas para os loas, enquanto os tambores seguem um ritmo apropriado, e a invocação se inicia.

Os tambores estão entre os símbolos centrais do Vodu haitiano. São considerados sagrados, por serem importantes no ritual de invocação do loa.

O tocar dos tambores tem muitas funções no ritual de Vodu. Pela combinação de ritmos tocados pelas baquetas, tambores médio e mestre e um par de pratos de metal chamado ogan, os dançarinos conseguem entrar em transe. Geralmente esse estado é atingido pela manipulação de ritmo e métrica, incluindo poderosas interrupções rítmicas chamadas casses, executadas pelo mestre dos tambores. A música de percussão também é essencial para manter o cenário do ritual depois que os dançarinos foram possuídos pelos loas. É da maior importância que os músicos mantenham os Loas dançando e usem ritmos especiais para expulsar qualquer espírito indesejado. Numa cerimónia Vodu, os devotos possuídos pelos loas podem aconselhar os problemáticos e executar milagres, como curar os doentes e adivinhar acontecimentos.

Em suma, importa ficar com a ideia de que o Vodu é portanto um culto de origem africano que assimilou um sem-fim de preconceito e elementos do imaginário católico e angolano-congolês afastando-se da sua raíz fundadora que no Brasil é preservado no Candomblé Jeje.

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Junho 23 2009 04:39 pm | Antropologia

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